16 de abril de 2013

medicina homeopático-simbiótica para tempo de crise

Portrait of a man smiling, close-upA escritora Odete Ferreira apresentou-nos um dia uma personagem masculina mais feia do que a sua criatividade podia descrever. Como corolário da imagística que usou para fazer ressaltar a intransponível feiura do homem, afirmou que nem mesmo no envelhecer ele conseguiu disfarça-la ostentando as célebres têmporas grisalhas que os homens maduros desenvolvem, uma de cada lado da cabeça, como último reduto de um sex-appeal passado. Nem mesmo a velhice lhe aplanou a fealdade com esses dois argumentos decorativamente pilosos junto às orelhas. O pobre homem – finalizava a escritora - perdeu o resto do cabelo antes de ele pratear em apoteose sobre os parietais maduros.

Já comigo, a natureza resolveu ser muito mais generosa. Ainda eu conseguia achar alguns pelos decentes sobre o cocuruto da moleirinha e já a divindade me presenteava com dois lindíssimos tufos de lã delicadamente argêntea naquilo que outrora fora um casal de suíças negras e hirsutas.

É verdade. A Mãe-natura acabou de me contemplar com duas belíssimas cãs esmaltadas, uma de cada lado da semi-destroçada carola.

Nada disto faria qualquer sentido se eu não tivesse ouvido na rádio uma notícia sobre as suíças brancas masculinas. Dizia a notícia que a visão de suíças brancas induz nas mulheres uma reacção de calma e tranquilidade, um abandono relaxante, um quase transe hipnótico. Suíças grisalhas masculinas são, pois, um medicamento barato e eficaz no tratamento da irritabilidade feminina.

Em abono da verdade, devo confessar que, até ao momento, o resultado cá em casa não tem sido deslumbrante. Minha mulher continuou a atirar-me com frigideiras ainda quentes, mesmo depois que orgulhosamente embranqueci sobre as orelhas. Explico este facto com o ditado popular “em casa de ferreiro, espeto de amieiro”. Talvez não funcione na nossa própria casa, já que santos da dita não fazem milagres. Fica, pois, desde já, enunciada a possibilidade de isto resultar bem melhor em casa alheia…

Paralelamente, recordo aqui um outro estudo, também cientificamente comprovado, segundo o qual a visão de seios femininos reduz substancialmente o risco de ataque cardíaco no homem heterossexual. É por tudo isto que o conceito de simbiose anda ultimamente a bailar no meu cerebelo, situado que está exactamente entre as tais tão fitossanitárias suíças esbranquiçadas.

É também por isso que, em nome da ciência e da promoção da saúde em ambos os sexos, gostaria de sugerir que uma representante do sexo feminino permanecesse sentada à minha frente, de torso descoberto, com o louvável intuito de me retardar o presumível avc. Em contrapartida, eu permitiria à senhora em causa uma ou várias sessões de observação de suíças brancas com o fim de reduzir nela os desagradáveis sintomas da tensão pré-menstrual.

(De notar que qualquer desenvolvimento criativo ou desvio ao padrão especificamente contratado fica prejudicado…)

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12 de abril de 2013

As rádios do blogue

radioOlá. Se, por acaso, não gostar de Blues, desligue o rádio. (Creio que nunca disse nada tão universalmente consensual). Depois disso, pode preferir ligar o Quintal do Pipoca, a outra rádio, bastante mais ligeira. No caso de realmente preferir, tenha a liberdade de o fazer. (Querem ver que a democracia regressou?!)

4 de abril de 2013

nove ilações

PORTUGAL FEIRAS NOVAS PONTE DE LIMA“Há uma coisa que o Presidente da República não deve fazer: é comer e pensar ao mesmo tempo. Hoje estou aqui para saborear estes petiscos. Amanhã responderei aos senhores jornalistas, visto que nunca deixei de o fazer”. - Cavaco Silva, hoje, no telejornal da 4.

Ilação 1. Os jornalistas estão de parabéns. Já fazem perguntas que obrigam o Presidente a pensar.

Ilação 2. O Presidente é homem, visto que não funciona em multitarefa. Qualquer mulher, mesmo a sua, teria respondido cabalmente a todas as perguntas e ainda teria composto a sua lapela (dele) e dado aos jornalistas alguns conselhos úteis sobre limpeza de cortinados.

Ilação 3. O Presidente, tal como outros dirigentes do PSD, é avesso a concordâncias: comer e pensar são, de facto, duas coisas e não uma.

Ilação 4. O Presidente é profundo conhecedor do ditado popular “enquanto se escapa não se assobia”.

Ilação 5. O Presidente sabe inverter inteligentemente o outro ditado popular que diz “primeiro as obrigações, depois as devoções”.

Ilação 6. O Presidente é fervoroso adepto do ditado popular “trabalho é trabalho, conhaque é conhaque”, desde que, obviamente, o conhaque seja para hoje e o trabalho para depois de amanhã ao fim da tarde. 

Ilação 7. O Presidente sempre respondeu aos jornalistas no dia seguinte (ou seja, depois do conhaque).

Ilação 8. O conhaque do Presidente tem um teor alcoólico subliminar – não acusa nos testes, mas reflecte-se na imprensa.

Ilação 9.  O Presidente da República refere-se sempre ao Presidente da República quando fala sobre o Presidente da República.

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29 de março de 2013

Ufa… o primeiro post

caderno1Estrear um novo blogue é como estrear um novo caderno ou rabiscar os primeiros esboços de uma obra de arte. Também aqui surge, certamente, o terror do papel branco. Há um pavor em cada palavra, um tefe-tefe do caraças…  

Bloqueios insuspeitados avançam intrepidamente e nota-se um adiamento inexplicável de cada ideia, de cada juízo, de cada raciocínio. O papel branco e os blogues novos deixam-nos irremediavelmente estúpidos.  (A minha vida deve ter sido passada a abrir blogues, a estrear cadernos e a esboçar inícios prometedores de inúmeras obras de arte – explicação cabal para o surgimento de incipientes fenómenos de burrice que tenho vindo a detectar em mim e cuja explicação me tinha passado ao lado até hoje…) 

Depois, passa. Refiro-me, naturalmente, ao medo. A burrice, essa, tenderá a aumentar…

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28 de março de 2013

A abrir

guerra_a_la_censura-600x434“É, portanto, uma nova guerra que se nos apresenta agora, muito mais soberba e crucial que aquela. Porém, como vos garanto que não se tratará ainda da batalha final, resolvi abordá-la com armas artesanais e suficientemente amadorísticas para não me esmurrar todo, no caso de elas me emperrarem na mão. Não pretendo matar ideologias, mas posso fazer-lhes cócegas (já um dia vi um miúdo à beira da morte por causa de uma sessão de cócegas, podem acreditar). Não posso reorientar o país na direcção certa mas posso voltar as placas ao contrário. Não sei dar tiros na rua, mas posso açular os meus rafeiros.“

In Tralapraki

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