19 de abril de 2013

só falo do que não sei (1)

Marisa Matias tinha assinado um relatório crítico sobre a actividade do Banco Central Europeu. Basicamente, e entre outros aspectos relevantes, ela fazia referência aos lucros do BCE com a compra de dívida dos países em dificuldades. De facto, o banco central “obteve ganhos significativos” com a deterioração das condições de financiamento dos países sob ajustamento financeiro. Supostamente, o BCE deveria aliviar essas condições, em vez de as tornar inexequíveis. Tratar-se-ia, portanto, de devolver algum desse lucro aos portugueses e aos outros “beneficiários” dos programas de ajustamento estrutural, proveniente do diferencial entre os juros que a banca paga ao FMI e os que recebe dos países sob sua ajuda, juros esses que se elevam a cerca do quíntuplo daqueles.

Explicar isto aos portugueses deve ser quase tão difícil como explicar a mim. Juro que já alguns economistas tentaram fazê-lo, sem sucesso visível. Ainda ontem, um economista que dá aulas numa escola secundária do centro do país me explicou, cheio de dedos e de salpicos salivares, a razão pela qual os donos do dinheiro não emprestam directamente aos governos dos países a 4 por cento e preferem emprestar ao sistema bancário a 0,75 por cento para depois o sistema bancário emprestar aos países a 5 ou 6 por cento. Ele explicou com clareza absoluta, parecia um dia de maio, mas eu, embrulhado ainda no inverno, não entendi.

Não deixei, no entanto, de reflectir, de modo obviamente errado, sobre o facto em análise, e de daí ter retirado uma ou outra conclusão, também necessariamente erradas. A razão pela qual os endinheirados preferem emprestar aos bancos é que têm mais confiança nos seus gestores do que nos primeiros-ministros dos países, ou mesmo nos seus presidentes da república ou monarcas constitucionais. Conhecendo eu, como conheço, a idoneidade, respeitabilidade e honestidade dos gestores financeiros, fico sem prateleira onde colocar os ministros, os reis e os presidentes dos países intervencionados.

Bom, a solução nacional consuetudinária dos meus amigos da tasca do Alfredo é colocar tudo na mesma gaveta, fechar à chave e depois deitá-la fora…

[Os buracos (o financeiro e o estrutural) são, no entanto, mais em baixo. Precisamos de competir com outros países e precisamos de deixar de gastar dinheiro mal gasto. Gaspar acedeu a este último desiderato onde acabará por poupar uns trocos. Mas só uns trocos, dinheiro para os fósforos, talvez. A competitividade não se adquire em menos de 15 ou 20 anos. Bom para Deus que pode esperar. A solução, se existisse, poderia ser possuir moeda nossa para desvalorizar. E, depois, trabalhar no inverno para aquecer e no verão para apagar os incêndios. E na primavera e no outono, trabalhar de borla, para oferecer ao mundo bens e serviços de altíssima qualidade a preços realmente competitivos. Bem baixinhos, para não voarem com o vento…]

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16 de abril de 2013

medicina homeopático-simbiótica para tempo de crise

Portrait of a man smiling, close-upA escritora Odete Ferreira apresentou-nos um dia uma personagem masculina mais feia do que a sua criatividade podia descrever. Como corolário da imagística que usou para fazer ressaltar a intransponível feiura do homem, afirmou que nem mesmo no envelhecer ele conseguiu disfarça-la ostentando as célebres têmporas grisalhas que os homens maduros desenvolvem, uma de cada lado da cabeça, como último reduto de um sex-appeal passado. Nem mesmo a velhice lhe aplanou a fealdade com esses dois argumentos decorativamente pilosos junto às orelhas. O pobre homem – finalizava a escritora - perdeu o resto do cabelo antes de ele pratear em apoteose sobre os parietais maduros.

Já comigo, a natureza resolveu ser muito mais generosa. Ainda eu conseguia achar alguns pelos decentes sobre o cocuruto da moleirinha e já a divindade me presenteava com dois lindíssimos tufos de lã delicadamente argêntea naquilo que outrora fora um casal de suíças negras e hirsutas.

É verdade. A Mãe-natura acabou de me contemplar com duas belíssimas cãs esmaltadas, uma de cada lado da semi-destroçada carola.

Nada disto faria qualquer sentido se eu não tivesse ouvido na rádio uma notícia sobre as suíças brancas masculinas. Dizia a notícia que a visão de suíças brancas induz nas mulheres uma reacção de calma e tranquilidade, um abandono relaxante, um quase transe hipnótico. Suíças grisalhas masculinas são, pois, um medicamento barato e eficaz no tratamento da irritabilidade feminina.

Em abono da verdade, devo confessar que, até ao momento, o resultado cá em casa não tem sido deslumbrante. Minha mulher continuou a atirar-me com frigideiras ainda quentes, mesmo depois que orgulhosamente embranqueci sobre as orelhas. Explico este facto com o ditado popular “em casa de ferreiro, espeto de amieiro”. Talvez não funcione na nossa própria casa, já que santos da dita não fazem milagres. Fica, pois, desde já, enunciada a possibilidade de isto resultar bem melhor em casa alheia…

Paralelamente, recordo aqui um outro estudo, também cientificamente comprovado, segundo o qual a visão de seios femininos reduz substancialmente o risco de ataque cardíaco no homem heterossexual. É por tudo isto que o conceito de simbiose anda ultimamente a bailar no meu cerebelo, situado que está exactamente entre as tais tão fitossanitárias suíças esbranquiçadas.

É também por isso que, em nome da ciência e da promoção da saúde em ambos os sexos, gostaria de sugerir que uma representante do sexo feminino permanecesse sentada à minha frente, de torso descoberto, com o louvável intuito de me retardar o presumível avc. Em contrapartida, eu permitiria à senhora em causa uma ou várias sessões de observação de suíças brancas com o fim de reduzir nela os desagradáveis sintomas da tensão pré-menstrual.

(De notar que qualquer desenvolvimento criativo ou desvio ao padrão especificamente contratado fica prejudicado…)

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12 de abril de 2013

As rádios do blogue

radioOlá. Se, por acaso, não gostar de Blues, desligue o rádio. (Creio que nunca disse nada tão universalmente consensual). Depois disso, pode preferir ligar o Quintal do Pipoca, a outra rádio, bastante mais ligeira. No caso de realmente preferir, tenha a liberdade de o fazer. (Querem ver que a democracia regressou?!)

4 de abril de 2013

nove ilações

PORTUGAL FEIRAS NOVAS PONTE DE LIMA“Há uma coisa que o Presidente da República não deve fazer: é comer e pensar ao mesmo tempo. Hoje estou aqui para saborear estes petiscos. Amanhã responderei aos senhores jornalistas, visto que nunca deixei de o fazer”. - Cavaco Silva, hoje, no telejornal da 4.

Ilação 1. Os jornalistas estão de parabéns. Já fazem perguntas que obrigam o Presidente a pensar.

Ilação 2. O Presidente é homem, visto que não funciona em multitarefa. Qualquer mulher, mesmo a sua, teria respondido cabalmente a todas as perguntas e ainda teria composto a sua lapela (dele) e dado aos jornalistas alguns conselhos úteis sobre limpeza de cortinados.

Ilação 3. O Presidente, tal como outros dirigentes do PSD, é avesso a concordâncias: comer e pensar são, de facto, duas coisas e não uma.

Ilação 4. O Presidente é profundo conhecedor do ditado popular “enquanto se escapa não se assobia”.

Ilação 5. O Presidente sabe inverter inteligentemente o outro ditado popular que diz “primeiro as obrigações, depois as devoções”.

Ilação 6. O Presidente é fervoroso adepto do ditado popular “trabalho é trabalho, conhaque é conhaque”, desde que, obviamente, o conhaque seja para hoje e o trabalho para depois de amanhã ao fim da tarde. 

Ilação 7. O Presidente sempre respondeu aos jornalistas no dia seguinte (ou seja, depois do conhaque).

Ilação 8. O conhaque do Presidente tem um teor alcoólico subliminar – não acusa nos testes, mas reflecte-se na imprensa.

Ilação 9.  O Presidente da República refere-se sempre ao Presidente da República quando fala sobre o Presidente da República.

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29 de março de 2013

Ufa… o primeiro post

caderno1Estrear um novo blogue é como estrear um novo caderno ou rabiscar os primeiros esboços de uma obra de arte. Também aqui surge, certamente, o terror do papel branco. Há um pavor em cada palavra, um tefe-tefe do caraças…  

Bloqueios insuspeitados avançam intrepidamente e nota-se um adiamento inexplicável de cada ideia, de cada juízo, de cada raciocínio. O papel branco e os blogues novos deixam-nos irremediavelmente estúpidos.  (A minha vida deve ter sido passada a abrir blogues, a estrear cadernos e a esboçar inícios prometedores de inúmeras obras de arte – explicação cabal para o surgimento de incipientes fenómenos de burrice que tenho vindo a detectar em mim e cuja explicação me tinha passado ao lado até hoje…) 

Depois, passa. Refiro-me, naturalmente, ao medo. A burrice, essa, tenderá a aumentar…

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28 de março de 2013

A abrir

guerra_a_la_censura-600x434“É, portanto, uma nova guerra que se nos apresenta agora, muito mais soberba e crucial que aquela. Porém, como vos garanto que não se tratará ainda da batalha final, resolvi abordá-la com armas artesanais e suficientemente amadorísticas para não me esmurrar todo, no caso de elas me emperrarem na mão. Não pretendo matar ideologias, mas posso fazer-lhes cócegas (já um dia vi um miúdo à beira da morte por causa de uma sessão de cócegas, podem acreditar). Não posso reorientar o país na direcção certa mas posso voltar as placas ao contrário. Não sei dar tiros na rua, mas posso açular os meus rafeiros.“

In Tralapraki

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