5 de outubro de 2013

a rentrée das nossas vidinhas…

Olá.  Entorpecido das férias, estava ainda na iminência de permanecer mais um pouco no doce molho da preguiça. No entanto, comecei a notar que havia uma pessoa com saudades das crónicas do “sofalo”: eu. Arrastei-me, então, até um computador, bocejei e pus-me a pensar sobre o que escrever, de modo a que a única razão não parecesse ser exclusivamente aquela. Surgiram dois ou três assuntos, algo decrépitos, mesmo maltrapilhos, que traziam consigo actualidade e estupidez suficientes para serem seriamente encarados: as bocas eleiçoeiras para presidentes de câmara; a rentrée do ano lectivo; a troikiana nona avaliação. Se fosse o Trala, não haveria certamente dúvidas de que ele escolheria a rentrée dos sobreviventes, cada vez em menor número e cada vez mais gastos. Porém, mais afastado das questões educacionais do que estava o “trala”, o “sofalo” preferiu as eleições e a nona avaliação, juntando, por questões economicistas, os dois assuntos no mesmo infortúnio literário – este post que o leitor agora contempla.

Pois a mim, tudo parece de uma simplicidade tocante: os portugueses (metade deles) avaliaram o Governo, acharam que era assim assim e votaram outro, que é rigorosamente o mesmo; o Governo avaliou o desastre iminente, achou assim assim, falou que estamos mal, que estamos bem e acabou por considerar que talvez;  a Troika saiu sem avaliar ninguém, feliz por não ter que o fazer. Ora, como quem cala consente, o Governo declarou a “avaliação” positiva, continuou à procura de chifre em cabeça de cavalo e veio afirmar que já se vê um túnel ao fundo do túnel. O povo, é claro, rumou a Fátima, à procura de soluções divinas. (Deus existe, mas não está cá. E faz cá uma falta…)

   post 11        (imagem domínio público)

15 de agosto de 2013

Crise? Qual Crise?

 

coldplayVerdadeiramente bom, exclusivamente bom, é o que é grátis. Na verdade, nunca percebi por que razão as coisas péssimas custam tão caro. Dou-lhes um exemplo: por que será que um festival de rock custa 500 euros e um concerto de jazz ou de música clássica custa uns 20 euros, isto quando não é absolutamente grátis. Ah, que se adormece lá, que é sempre a mesma coisa! E que raio têm vocês contra as sonecas? Acaso têm melhor coisa para fazer? Se têm é porque ainda são demasiado novos e não me apetece encetar uma discussão com gente tão imatura.

Vivemos, iniludivelmente, o melhor período das nossas vidas. Os cortes salariais baixaram a crista dos arrogantes; os desempregados estão na fila para o Céu dos pardais; os pensionistas vivem nos lares, recheados de miúdas de 70 anos, mais oferecidas do que uma catraia do profissional de hotelaria… Já repararam que os lares são na verdade bares de alterne ao alcance de qualquer bolsa medíocre? Está certo, sobra mês, em vez de sobrar ordenado. Mas alguém ou alguma coisa há-de repor o que faltou… Afinal, as dívidas soberanas, tal como as subalternas, não são para pagar, mas para ir pagando.

Não temos dinheiro para ir ver um bom espectáculo! Ah que chatice. Não ir a espectáculos degradantes é uma mais-valia, fiquem sabendo, uma providencial fuga à alienação colectiva. Já experimentaram antes ouvir com atenção (e com alguma vontade de rir) os nossos ministros, magistrados, assembleireiros, presidentes republicanos, chefes militares, partideiros? E querem melhor espectáculo? É óptimo. É grátis. Concertos pop? Revistas? Óperas? Rocalhadas? Comédias em pé e sentadas? Valha-vos deus! Sublimes, hilariantemente sublimes são os esgares, os ditos, as construções frásicas, os argumentos, as falácias dos nossos políticos.

A crise, para mim (que ainda consigo auferir um cachet exorbitante de 1000 euros mensais) tem sido só rir! Claro que eu sei muito bem que a crise não foi benfazeja para os desempregados que já deixaram de receber o subsídio. Tenho muita pena desses, pelo menos se ainda não encontraram um biscato como dealers que lhes renda um pouco mais que o ordenado mínimo… Podem não acreditar, mas há pessoas que ficaram pobres, irremediavelmente pobres, que depois de perderem o emprego perderam sucessivamente os filhos (que se bandearam para o tio rico americano) e a mulher (que se bandeou para o lado de um candidato autárquico , cheio de euros e de dólares que há 30 anos não faz mais nada além de sobrefacturar empreendimentos locais.

Mas dizia eu que a crise é um manancial de alegria e de boa-disposição. Tentar perceber as manigâncias dos espertalhotes é melhor que sudoku. É um passatempo riquíssimo, um exercício de intelectualidade que faz mais por nós que o memofante.

Para terminar, não resisto a contar-vos um dos meus dias típicos de férias. Pode ser o de ontem. Ontem fui a uma cidadezita aqui perto. Tinha água em riachos, esplanadas com sol, cafés e supermercados. Deambulei sozinho, comprei jornais, tomei cafés. Ás 5 da tarde entrei como por acaso numa casa da cultura onde passava Berlioz. Era grátis. Uma orquestra sinfónica de conservatório aprimorava a sua arte. Acho que era uma espécie de teste de avaliação dos jovens músicos. Achei-os esplêndidos. Por mim tinham todos 20. Aquilo durou umas duas horas. Dormi toda a segunda hora. Fui acordado por uma jovem esbelta que achou por bem não permitir que eu fosse fechado lá dentro.

Saí satisfeitíssimo, com Berlioz nos ouvidos e a placidez no coração.

A minha mulher estava à minha espera, mais fula que o óleo alimentar. Nervosa e arruaceira. Tinha estado no concerto dos Cold Qualquer Coisa. Coitada!

     Post  10                    (Imagem daqui)

17 de julho de 2013

chamuscação colectiva

Nenhum partido político sairá ileso da convocatória presidencial. O PSD foi, obviamente, o primeiro chamuscado, ainda pelas mãos do próprio Presidente que lhe adiou a morte anunciada, mas não lha retirou. O CDS automutilou-se, decepou um dos seus membros, só porque sim. Agora, vive à procura de um membro novo que possa ser atarrachado sem sequer ir ao hospital. O PS nunca foi coisa nenhuma e quando por momentos foi alguma coisa nunca essa coisa foi suficientemente credível fosse para o que fosse. O Não-Sei-das-Quantas Seguro anda à procura da charneira do Soares, mas não sabe em que raio de cofre a velha raposa a guardou, e, se lhe perguntar, ele já nem se lembra de que coisa isso era. (A velha raposa ainda alinha palavras de modo gramaticalmente correcto, mas essas palavras já há muito estão obsoletas. Algumas delas já significam exactamente o contrário daquilo que Soares está convencido que elas ainda significam).

E são estes os partidos do arco da governação. Nos Estados Unidos há algures uma cidade com trinta pessoas que é governada por um puto de 4 anos. Aqui temos uma cidade de 10 milhões governada por três partidos governados por três putos de 40 anos. Mas vamos agora saltar para os partidos excluídos do tal arco governativo, já que a minha intenção é mesmo demonstrar que nenhum deles sairá incólume do momento político que o presidente se lembrou de criar…

Ora bem, comecemos pelo meu partido. O meu bicéfalo partido, bicéfalo e bissexual, o que o torna necessariamente um pouco miscígeno, era, nos anos 70, um partido trotskista que se aburguesou progressivamente, se metrosexualizou infinitamente, à procura de consensos. Está queimado porque, tendo tomado uma verdadeira posição trotskista, a de não pactuar com as tricas das tróicas, esqueceu-se da economia e de nos explicar como e onde vamos arranjar dinheiro para comprar os melões. O povo, que é estúpido por natureza e não entendende onde se situa esse novo filão que gera os patacos, deixou de lhe passar cartão. O facto de nem sequer querer ir às festas dos banqueiros mundiais não poderá ser perdoado por quem não tem um tostão. Tentar puxar o PS para as suas descausas tem-se revelado um churrasco eficaz. Ah, referia-me ao BE. O mesmo se pode dizer do PCP, o partido que não mente ao povo, que tem medo de se despersonalizar se aceitar entrar no clube dos da governança. Certamente, foi o partido que mais cedo se chamuscou, mal caiu o muro, sobretudo por não ser capaz de fazer autocrítica, a autocrítica que o próprio Lenine tanto considerou. Não quis seguir pelo caminho fácil do eurocomunismo e segue agora, sombriamente, pelo caminho impossível de ninguém. Queima-se mais e mais com o seu limitadíssimo dirigente a defender, perante dez militantes, as delícias de nunca mudar.

Posto isso, que venham as eleições. Eu continuarei a desenhar caralhinhos nos boletins de voto, o meu primo continuará a ficar na cama no dia das eleições, metade dos portugueses continuará a votar PS, PSD e PP. Nas próximas eleições o PS terá uma maioria relativa, graças ao Seguro (apesar do Seguro), o PSD virá a seguir (graças ao Coelho/apesar do Coelho) e o PP do Portas , comportas ou semportas, meterá o nariz aqui ou ali, conforme a amplitude das fendas verificadas. A troica continuará por cá, declaradamente apaixonada pelo nosso clima, e adquirirá a nacionalidade portuguesa.

E Portugal, bom, Portugal tem que voltar aos navios, às conquistas e aos feitos gloriosos, ou seja, a ver navios, às conquistas  na mata de Monsanto e ao feito glorioso de conseguir vender antenas e auto-rádios aos seus próprios donos…

      Post 9             (Imagem daqui)

30 de junho de 2013

A autoridade e o estrado

De todos os estudos que viemos fazendo ou fabricando ao longo dos anos, nenhum se apresenta mais ostensivamente claro do que aqueles que estabelecem uma relação unívoca entre o desaparecimento progressivo do estrado e a progressiva perda da autoridade pedagógica do professor. O estrado foi desaparecendo na razão directa do aumento da indisciplina na sala de aula.

Conheci escolas que tinham dois estrados., ou seja, havia que subir dois degraus para chegar ao professor, postado sobre eles, semioculto por uma secretária de mogno esmagadora, infalível. O aluno que subia a esse estrado raramente o fazia por vontade própria., na medida em que havia nele um não-sei-quê de cadafalso. Obviamente, em vez de uma corda ao pe3scoço, ou de uma lâmina afiada sobre a sua cabeça, o desgraçado que para ali se dirigia, melhor, que para ali era obrigado a dirigir-se, era antes toureado com sarcasmo e elegância até ostentar toda a riqueza da sua inominável ignorância.

Depois, o estrado desceu um degrau, fez subir a auto-estima do aluno e descer a do professor. Foi por esta altura que os professores tiveram que refinar um pouco a ironia usada no aporrinhamento do aluno, a ponto de este raramente a perceber. Com o 25 de Abril, os educadores , devidamente enquadrados por um novo bando de pedagogos emplumados, desocultando a ciência oculta de ensinar, aboliram definitivamente o estrado, acabando por obrigar a sala de aula á disposição em U. Por seu turno, o professor ficou obrigado à postura do sempre-em-pé, destituído da sua honorífica secretária e, no extremo, espoliado de uma simples mesa e até mesmo de uma cadeira. Passou, portanto, a dar as suas aulas no meio daquele U de indivíduos cada vez mais iguais, cada vez mais brothers e mais cheios de torcicolos, sobretudo os das abas laterais do U, por tentarem olhar para o quadro. De notar que, para obstar ao aumento dos torcicolos, acabou o quadro por ser também abolido. Na verdade, mesmo nas salas onde ele ainda existe, raramente é objecto da atenção dos alunos e dos professores. Com o advento do quadro hiperactivo, o velho quadro foi relegado para um canto da sala, onde se escrevem anúncios de actividades desportivas patrocinadas pela compal ou pela coca-cola.

Destruído o estrado, desenfileirada a velha ordem das carteiras, desprestigiada a autoridade docente, deslegitimado o quadro do saber, anarquizado o espaço pedagógico, instalou-se a democracia individual. O professor passou a mandar 1/30 da sala de aula, tanto quanto qualquer um dos outros.

Porém, ao contrário do que eu já um dia tinha previsto, ainda não foi decretado que o professor fosse remetido para um fosso semelhante ao fosso da orquestra nos teatros líricos, mas podemos ter a certeza que isso só não foi ainda conseguido porque acarretaria despesas incomportáveis na transformação das actuais salas de aula, rubrica dificilmente inscrevível no orçamento rectificativo.

Mas o tal fosso já existe. É lá que nos encontramos, berrando para fazer ouvir a nossa voz lá em cima, nas carteiras despovoadas de educação…

     Post 8        (Imagem daqui)

21 de junho de 2013

Móbeis para Revoluções à solta pelas ruas…

papel higienico chavez 2

A equipa que, na Venezuela, move oposição sistemática à família Hugo Chávez apresentou a sua palavra de ordem revolucionária, a sua tese de candidatura: “papel higiénico para todos!”

Houve guerras do alecrim (José da Silva), da manjerona (idem), do chá (Revolução americana), do bacalhau (Islândia, século XIX), das rosas (Inglaterra, século XV); houve a revolução dos cravos (Nacinha*, 1974), a revolução branca (Irão 1963), a agrícola (Inglaterra, século XVIII), a de veludo (Checoslováquia, 1989), a dos escravos (Santo Domingo, 1791), a dos bichos (George Orwell, 1945). Obviamente, faltava-nos a revolução do papel higiénico, a provar que as revoluções e as guerras têm sempre origem na comida, na bebida, nas cores, na macieza das coisas, em perfumes (alecrim) e em odores (escravos e bichos).

Quando falei da macieza das coisas, referia-me ao veludo que espoletou uma revolução na Checoslováquia e não ao papel higiénico, causa primordial da actual revolução venezuelana. Na verdade, na Venezuela, não é tanto a qualidade que conta mas sim a quantidade, ou seja, a escassez do produto. Nicolas Maduro teve que importar 79 milhões de dólares de papel destinado à higienização anal do povo venezuelano. Foi o pretexto para a oposição sair à rua vociferando contra a ditadura de Chavez que deixou o cu do país num verdadeiro estado de humilhação fecal.

Apesar de ter sido o papel com a foto de Chávez aquele que, sabe-se lá porquê, mais rapidamente rareou no mercado, os venezuelanos acabaram por lançar mão de todo e qualquer papel que se vendesse enrolado, culminando até mesmo no uso dos Havana – um desperdício inútil, uma utilização tão imprópria quanto ineficaz, salvo seja.

E no Brasil? Qual a razão da revolução menchevique que se vive no Imperio do Sul? Futebol a mais e hospitais a menos, dizem os manifestantes, ou seja, demasiado lixo para tão pouca água, ou, se quisermos manter o simile da Venezuela, voltamos a ter demasiada matéria fecal para tão pouco papel higiénico.

Em Portugal, a revolução ainda não conseguiu emblema que se lhe ajustasse. A revolução dos cravas não me parece suficientemente interessante, até porque crava que é crava de verdade defende intransigentemente o status quo, o consuetudinário, ambiente sem o qual não consegue fazer evoluir decentemente a sua arte. O crava necessita mesmo é de estabilidade política para fazer florescer a sua divina prestidigitação. Sem estabilidade política, o crava fica de mãos atadas, desastre inominável para um carteirista que se preze…

Quanto aos cravados, na medida em que o são de modo praticamente anestésico, não chegaram ainda a ver o verdadeiro alcance da miséria que os espera. São como a rã que se deixa cozinhar pacificamente, se o calor for aplicado lenta e gradativamente à água onde, despreocupadamente, nada.

*Nacinha – diminutivo derrogatório de “Nação”

     Post 7                 Imagem: domínio público

23 de maio de 2013

Parece que foi ontem (1)…

10 de Março de 2007 – “À espera da Síntese prometida”

O Tralapraki morreu, de facto, mas ainda não está completamente enterrado. Ficou, vejam lá, com o rabo de fora, a dar a dar. Os saudosos desta publicação - quero dizer, eu - vão ser levados (praticamente à força) a revisitar alguns posts passados. O de hoje aborda o tema da esperança que pode haver em outras visões sociais e políticas. No negrume do que nos aconteceu, parece ainda haver um túnel ao fundo do túnel… :)

(Visite-o, clicando na hiperligação do subtítulo).

Estou quase de volta…

Quero todas as minhas esferográficas alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes para a escrita. Eis que se anuncia,de modo sumamente breve, a volta (a revolta) do blogue amado…

15 de maio de 2013

satisfação aos meus três leitores

imageTive que me ausentar uns dias para fazer mais uma recauchutagem à carcaça. É um tecido meio estafado que eu tenho na bexiga e preciso de ir à revisão de vez em quando, a ver se o remendo, ou lhe contenho a degradação definitiva…

Com a crise, há que remendar  o pano velho, que talvez ele nos dure mais um ano. Nem sequer faço ideia de quanto possa custar uma bexiga nova…

Bom, ter uma doença abusada pode ter o seu lado positivo: serve para justificar a real falta de inspiração que me acomete de vez em quando, precisamente nos intervalos dos restantes momentos em que também não a tenho…

Assim que o emplastro surtir efeito, volto aqui para continuar a massacrar os meus amigos leitores. É uma ameaça a que não consigo furtar-me. Uma espécie de sadismo compassivo…Sorriso