D. Teresa de Sousa Bastos de Bragança e Souto estava sentada no seu canapé, debicando pipocas doces. A centésima terceira pipoca, ao vislumbrar a boca escura, abundantemente aberta de D. Teresa, falha de dentes mas não de apetite, insurgiu-se e, tanto quanto lhe permitia a sua compleição de milho assado, recusou entrar. D. Teresa, a quem restara um vislumbre de nobreza mas nenhum de dinheiro, decidiu que nenhuma pipoca lhe fazia o ninho atrás da orelha (por vezes, boquiabro-me de todo com estas imagens antinatura, embora não me escandalize nada o facto de imaginar uma pipoca doce azafamada a construir um ninho de pardoca sobre o proeminente mastóide - ou será parietal? - de D. Teresa de Sousa Bastos).
Afinal, como será que uma simples pipoca recusa entrar na cavidade oral de uma nobre dos tempos modernos, sem dinheiro, mas com orgulho suficiente para não engolir essa afronta? Simplesmente caindo. Caindo, desprendendo-se dos dedos de Teresa e refugiando-se na mais próxima dobra do sofá. Pois, mas foi lá mesmo que a infanta a procurou, com os seus dedos esguios, algo decrépitos, e a reconduziu à fossa abissal da sua garganta inóspita.
As outras pipocas engoliram em seco. (caramba, outra imagem contranatura). E caíram por terra quaisquer sequentes tentativas de revolta, de motim, de sublevação, de revolução republicana, socialista e leiga.
Se algum dia as pipocas deste país resolverem revoltar-se, não se esqueçam de erguer uma estátua à pipoca insurgente que foi ingloriamente comida por D. Teresa de Sousa Bastos de Bragança.
Não perceberam o alcance da parábola? Eu também não. Deve ter sido psicografada, é o que é…
Obviamente que os professores do quadro também vão ser submetidos a exame para entrar na carreira, como os novatos. Não é que isso faça muito sentido, mas que sentido precisamos nós de descobrir, naquilo que o não tem, para justificar as medidas governamentais? Aliás, as coisas sem sentido estão na base da criação do universo e na sua manutenção técnica. Os deuses têm sentido? A vida? o casamento? a cerveja sem álcool? os preservativos com canela? (ops, isto tem sentido, sim, e creio que deve ser sentido único). Mas, para além dele, do preservativo acanelado, nada mais tem sentido debaixo do sol, e ninguém me dissuade de pensar que mesmo o próprio sol não seria tão desejado se nunca tivesse existido.
Nenhum partido político sairá ileso da convocatória presidencial. O PSD foi, obviamente, o primeiro chamuscado, ainda pelas mãos do próprio Presidente que lhe adiou a morte anunciada, mas não lha retirou. O CDS automutilou-se, decepou um dos seus membros, só porque sim. Agora, vive à procura de um membro novo que possa ser atarrachado sem sequer ir ao hospital. O PS nunca foi coisa nenhuma e quando por momentos foi alguma coisa nunca essa coisa foi suficientemente credível fosse para o que fosse. O Não-Sei-das-Quantas Seguro anda à procura da charneira do Soares, mas não sabe em que raio de cofre a velha raposa a guardou, e, se lhe perguntar, ele já nem se lembra de que coisa isso era. (A velha raposa ainda alinha palavras de modo gramaticalmente correcto, mas essas palavras já há muito estão obsoletas. Algumas delas já significam exactamente o contrário daquilo que Soares está convencido que elas ainda significam).
De todos os estudos que viemos fazendo ou fabricando ao longo dos anos, nenhum se apresenta mais ostensivamente claro do que aqueles que estabelecem uma relação unívoca entre o desaparecimento progressivo do estrado e a progressiva perda da autoridade pedagógica do professor. O estrado foi desaparecendo na razão directa do aumento da indisciplina na sala de aula.