11 de agosto de 2014

sardinhas, líderes, primatas, pimentos, o diabo

mefistE foi então que me apareceu, sobrelevada no topo de uma pequena eminência, uma estranha espécie de Mefistófeles, uma curiosa figura de longa capa rubra a adejar sobre um corpito estreito de subalimentado, anoréctico, de postura lordótica, nariz adunco e queixo afiado, enfim, o bruxo, o Merlin, o capeta da tradição judaico-cristã.

Nos sonhos as imagens apresentam-se fluidas e mutantes e esta resvalou para a cara de um Salazar em 1933, ainda jovem, mais ou menos como aparece esboçado na capa do Dinossauro Excelentíssimo. “Mas, então – disse eu – (embora nos sonhos “dizer” possa não emitir qualquer som) – se é o Salazar, há que ouvir o que o homem tem para me dizer”. E tinha, de facto, algo para me dizer. Podia também ter sido o próprio Passos Coelho, já que qualquer um deles é mais parecido com o outro do que com o próprio retrato, mas rejeitei a hipótese porque o Passos está a banhos. O certo é que (tanto quanto um pesadelo pode ser certo) o homem da capa falou assim, como um Zaratustra dos Carapelhos:

“Acorda, levanta-te, lava os dentes, que não se pára aqui, veste umas calças castanhas e uma camisa azul e vai conduzir o teu país à felicidade e ao progresso”. “Mas eu não tenho perfil de líder, amo, nem calças castanhas eu tenho, porra!. Está certo que, quando era pequeno, aprendi que era fácil liderar uma multidão de galinhas, deixando cair bagos de milho. Isso dava-me muita alegria e um estatuto de poder que nunca mais experimentei na vida, mas…”

O homem do queixo aguçado tocou numa pedra com os dedos esguios, descarnados, azuis, e logo um painel se abriu no céu, mesmo por trás da sua cabeça de pardal (as coisas evoluem grosseiramente nos sonhos). E falou outra vez: “Estás a ver, idiota? Se não te mexes, é isto que vai acontecer” – e apontou para o painel com um  dispositivo apontador, pois claro. “O quê?! uma lanterna laser dos chineses!? Você quer que eu acredite num painel, para o qual você aponta com uma lanterna laser que projecta um patinho? Todos os meus alunos do nono ano tinham uma dessas, com que rastreavam o quadro (e, claro, as minhas costas) enquanto eu escrevinhava o que havia de mais básico na gramática inglesa.  Tenha maneiras. Tivesse você na mão uma espada flamejante, ou mesmo uma lâmpada tubular de neon, como a que eu instalei no abrigo dos meus cachorros, e ver-me-ia posto a seus pés, numa postura de humílima adoração. Agora um laser de pechisbeque…”

Os meus sonhos apresentam sempre o mesmo padrão: sonho sempre que estou com muito sono, incapaz de entrar, de facto, na acção que neles se desenvolve. Foi nessa languidez absoluta que me dispus a olhar para o painel celeste que agora era apenas um monitor CRT. “Nem sequer um monitorzito LCD, meu mefistófeles de Xabregas? Você não aprendeu ainda que a motivação de um aprendente passa, exclusivamente, por um bom manancial de produtos tecnológicos de elevada operacionalidade? Homem (ou lá o que você é), inscreva-se nas acções de formação sobre motivação na sala de aula. Você não aprenderá nada, é claro, e ficará exactamente tão estúpido como era dantes (o que não deixa de ser uma vantagem, visto que a ausência de uma desgraça já é uma felicidade), mas ganhará dois créditos, caramba! Ah, ainda pergunta? Servem para você subir de escalão quando eles forem descongelados…”

“Não temos escalões na carreira dos bruxos, embora os liberais tenham tentado estratificar a carreira em três patamares. Esse que aí vês, será o próximo líder do teu país. Não tem o carisma de um Rolão Preto, de um Sidónio Pais, ou de um Pinto Balsemão, nem mesmo de uma Maria da Fonte. Mas será o líder deste povo, se tu, miserável, não saltares fora dessa cama. A propósito, há quanto tempo não mudas os lençóis?”

“Só espero” - lembro-me de ter pensado - “que, quando eu acordar, este tipo já não esteja aqui e leve consigo essa colina de pedregulho onde se empoleira. Se assim não for, como explicarei isso à minha mulher? Uma mulher acorda de manhã e há um monte de pedras no quarto e um cheiro a enxofre que tresanda!. Como vou convencê-la de que não esteve aqui a taróloga Maya ou a Maria Helena Martins?  O tipo pensa que ela é osso fácil de roer? Aposto que não é casado. Se fosse, não estaria fora da cama a estas horas…”

“Concentra-te no que te mostro, imbecil”. “Ok, ok, diz lá”

Havia uma imensa multidão com bandeirolas, umas do Benfica, outras do PSPSDCDS, o boneco do bloco, vários emblemas do BESBOM, bandeiras brancas, azuis, amarelas, estandartes, banners, errrros hortográphicos, calçado ortopédico, bandeiras da nike, uma enorme bic esfera fina, carne de cozer do Lidl, tichartes com alarvidades escritas, bermudas a cair rabo abaixo. O costume. À frente desta turba, um homem gorducho erguia a mão direita em punho balofo e saudava o ar com a esquerda. “Junte-se aos bons, companheiro” – falou ele dirigindo-se a mim. Quando me aproximei mais da turbamulta, vi que eram macacos,  grotescos símios rindo alarvemente com esgares pre-civilizacionais, mordiscando-se lambendo-se, coçando-se, catando-se, em alegre e harmoniosa convivência.

Gostei disso, era a minha cara. Senti-me imediatamente um deles e juntei-me à turba, saudando arqueado, dócil, oferecido, o líder risonho e bonacheirão. Prossegui a marcha, estreitado entre duas chimpanzés atrevidas, e só então reparei que o carismático e risonho líder trazia às costas um avantajado cacho de bananas. “Não se diz cacho, diz-se figo de bananas” corrigiu uma das chimpanzés, que era da Madeira…

“Nunca mais como pimentos à noite” – disse eu – e elas riram. “O que são pimentos? -perguntou um orangotango de chinelo de dedo…

3 de agosto de 2014

Vale a pena ler de novo… ou não

Tropecei nisto e reli. Achei… curioso. Aí vai…

http://sofalodoquenaosei.blogspot.pt/2013/04/medicina-homeopatico-simbiotica-para.html

Vem aí mais um ano lectivo…

 

Em 1 de Setembro , com o patrocínio da Compal Light e o apoio do BES e Correio da Manhã TV, entra em sua casa mais um ano lectivo. Já por seu turno, o novo ano parlamentar terá o patrocínio exclusivo do Pingo Doce e da Tranquilidade Seguradora. O novo ano legislativo contará com o apoio incondicional da Empresa Alta Rolante, táxis e tipóias de Lisboa.

Voltando ainda ao ano lectivo, todas as aulas de Educação Física ficarão a cargo da Danone com pedaços e Chocapic, pequenos almoços saudáveis e nutritivos. A empresa Another Step, auto-avaliações sob medida limitada, fornecerá os testes de avaliação de todas as disciplinas curriculares e a Cambridge For Schools patrocinará a componente oral dos exames finais de Língua Inglesa e produzirá todas as planificações e material necessário ao desenvolvimento dos curricula nesta língua. As visitas de estudo, num total de 50 por período e por escola, terão ajuda à produção da “Voar daqui Pra Fora”, Directores de Turma Associados. Os 16 bailes de finalistas previstos para cada escola terão o inestimável patrocínio de Liberty Seguros, a mesma que patrocina a Volta a Portugal em Bicicleta e também em tanga unisex. Aos professores fica acometida a tarefa de abrir os computadores às oito da manhã e fechá-los à noite. Serão todos objecto de acções de formação sobre escrita de sumários e arquivo de papéis em dossiers patrocinadas pela Staples, material de escritório. A componente lectiva ficará a cargo de uns rapazolas vindos não se sabe de onde. Já há escolas onde estas criaturas deambulam pelos corredores, desde o início de Agosto, com o objectivo de se aclimatarem ao novo serviço de prestação de conteúdos, que será patrocinado pela Agência de Viagens Novitur e pelo Intermarché Bricolage e mobiliário de jardim. Alguns dormem mesmo lá a sesta e ninguém nunca lhes perguntou quem eram…

28 de junho de 2014

Nobreza e pipocas

pipocaD. Teresa de Sousa Bastos de Bragança e Souto estava sentada no seu canapé, debicando pipocas doces. A centésima terceira pipoca, ao vislumbrar a boca escura, abundantemente aberta de D. Teresa, falha de dentes mas não de apetite, insurgiu-se e, tanto quanto lhe permitia a sua compleição de milho assado, recusou entrar. D. Teresa, a quem restara um vislumbre de nobreza mas nenhum de dinheiro, decidiu que nenhuma pipoca lhe fazia o ninho atrás da orelha (por vezes, boquiabro-me de todo com estas imagens antinatura, embora não me escandalize nada o facto de imaginar uma pipoca doce azafamada a construir um ninho de pardoca sobre o proeminente mastóide - ou será parietal? - de D. Teresa de Sousa Bastos).

Afinal, como será que uma simples pipoca recusa entrar na cavidade oral de uma nobre dos tempos modernos, sem dinheiro, mas com orgulho suficiente para não engolir essa afronta? Simplesmente caindo. Caindo, desprendendo-se dos dedos de Teresa e refugiando-se na mais próxima dobra do sofá. Pois, mas foi lá mesmo que a infanta a procurou, com os seus dedos esguios, algo decrépitos, e a reconduziu à fossa abissal da sua garganta inóspita.

As outras pipocas engoliram em seco. (caramba, outra imagem contranatura). E caíram por terra quaisquer sequentes tentativas de revolta, de motim, de sublevação, de revolução republicana, socialista e leiga.

Se algum dia as pipocas deste país resolverem revoltar-se, não se esqueçam de erguer uma estátua à pipoca insurgente que foi ingloriamente comida por D. Teresa de Sousa Bastos de Bragança.

Não perceberam o alcance da parábola? Eu também não. Deve ter sido psicografada, é o que é…

27 de junho de 2014

O “Sofalo” vai voltar

Pois. Separei-me do Sofalo, fui dar uma volta por aí e voltei a casa com vontade de o abraçar de novo. Entretanto, estive a escrever para os cadernos, É certo que o Google bloqueou todas as minhas contas, por questões de segurança. Não foi fácil recuperar o Trala e o Sofalo. Eu sei que não são grande coisa, mas são filhos, po… e um filho deve sempre ser recuperado, quando houver uma réstia de possibilidade de o fazer……

Um abraço. Já volto…

21 de novembro de 2013

Vêm aí exames para tudo o que mexe

Obviamente que os professores do quadro também vão ser submetidos a exame para entrar na carreira, como os novatos. Não é que isso faça muito sentido, mas que sentido precisamos nós de descobrir, naquilo que o não tem, para justificar as medidas governamentais? Aliás, as coisas sem sentido estão na base da criação do universo e na sua manutenção técnica. Os deuses têm sentido? A vida? o casamento? a cerveja sem álcool? os preservativos com canela? (ops, isto tem sentido, sim, e creio que deve ser sentido único). Mas, para além dele, do preservativo acanelado, nada mais tem sentido debaixo do sol, e ninguém me dissuade de pensar que mesmo o próprio sol não seria tão desejado se nunca tivesse existido.

É, portanto, fácil partir para um decreto regulamentar que aposta na extirpação de vinte euros aos professores. Há um sem número de vozes a aplaudir uma medida que, mesmo sendo estúpida, ajuda a calar algumas bocas desaforadas. Lembrei-me agora que 20 euros roubados a cada professor, básico ou superior, ignorante ou catedrático, ou seja, mais ou menos ignorante, (com exame ou sem exame, já que isso é completamente indiferente) renderão dois milhões de euros, a contar por baixo. É, nós ainda somos 100000, se contarmos com os idiotas que estão fora do sistema de ensino mas mantêm o desejo insano de regressar.

Não será muito o que se arrecada com vinte euros pelo exame de acesso à carreira, é certo, mas podemos com eles calar a boca a uns poucos de generais, mortinhos por voltar a afiar as facas e derrubar o que resta deste governo trôpego. Se tirarmos uns tostões à horda de professores que se arrasta por aí poderemos redireccionar a fúria dos militares a contento de muitos dos lacaios do neoliberalismo financista.

Está certo que um exame de acesso a uma carreira onde as pessoas já se encontram configura, naturalmente, uma atitude esquizofrénica. Mas eu não me lembro de ter vislumbrado uma única atitude política que não tivesse sido esquizofrénica, nos últimos dez anos das nossas vidas...

     Post 12        (imagem domínio público)

5 de outubro de 2013

a rentrée das nossas vidinhas…

Olá.  Entorpecido das férias, estava ainda na iminência de permanecer mais um pouco no doce molho da preguiça. No entanto, comecei a notar que havia uma pessoa com saudades das crónicas do “sofalo”: eu. Arrastei-me, então, até um computador, bocejei e pus-me a pensar sobre o que escrever, de modo a que a única razão não parecesse ser exclusivamente aquela. Surgiram dois ou três assuntos, algo decrépitos, mesmo maltrapilhos, que traziam consigo actualidade e estupidez suficientes para serem seriamente encarados: as bocas eleiçoeiras para presidentes de câmara; a rentrée do ano lectivo; a troikiana nona avaliação. Se fosse o Trala, não haveria certamente dúvidas de que ele escolheria a rentrée dos sobreviventes, cada vez em menor número e cada vez mais gastos. Porém, mais afastado das questões educacionais do que estava o “trala”, o “sofalo” preferiu as eleições e a nona avaliação, juntando, por questões economicistas, os dois assuntos no mesmo infortúnio literário – este post que o leitor agora contempla.

Pois a mim, tudo parece de uma simplicidade tocante: os portugueses (metade deles) avaliaram o Governo, acharam que era assim assim e votaram outro, que é rigorosamente o mesmo; o Governo avaliou o desastre iminente, achou assim assim, falou que estamos mal, que estamos bem e acabou por considerar que talvez;  a Troika saiu sem avaliar ninguém, feliz por não ter que o fazer. Ora, como quem cala consente, o Governo declarou a “avaliação” positiva, continuou à procura de chifre em cabeça de cavalo e veio afirmar que já se vê um túnel ao fundo do túnel. O povo, é claro, rumou a Fátima, à procura de soluções divinas. (Deus existe, mas não está cá. E faz cá uma falta…)

   post 11        (imagem domínio público)

15 de agosto de 2013

Crise? Qual Crise?

 

coldplayVerdadeiramente bom, exclusivamente bom, é o que é grátis. Na verdade, nunca percebi por que razão as coisas péssimas custam tão caro. Dou-lhes um exemplo: por que será que um festival de rock custa 500 euros e um concerto de jazz ou de música clássica custa uns 20 euros, isto quando não é absolutamente grátis. Ah, que se adormece lá, que é sempre a mesma coisa! E que raio têm vocês contra as sonecas? Acaso têm melhor coisa para fazer? Se têm é porque ainda são demasiado novos e não me apetece encetar uma discussão com gente tão imatura.

Vivemos, iniludivelmente, o melhor período das nossas vidas. Os cortes salariais baixaram a crista dos arrogantes; os desempregados estão na fila para o Céu dos pardais; os pensionistas vivem nos lares, recheados de miúdas de 70 anos, mais oferecidas do que uma catraia do profissional de hotelaria… Já repararam que os lares são na verdade bares de alterne ao alcance de qualquer bolsa medíocre? Está certo, sobra mês, em vez de sobrar ordenado. Mas alguém ou alguma coisa há-de repor o que faltou… Afinal, as dívidas soberanas, tal como as subalternas, não são para pagar, mas para ir pagando.

Não temos dinheiro para ir ver um bom espectáculo! Ah que chatice. Não ir a espectáculos degradantes é uma mais-valia, fiquem sabendo, uma providencial fuga à alienação colectiva. Já experimentaram antes ouvir com atenção (e com alguma vontade de rir) os nossos ministros, magistrados, assembleireiros, presidentes republicanos, chefes militares, partideiros? E querem melhor espectáculo? É óptimo. É grátis. Concertos pop? Revistas? Óperas? Rocalhadas? Comédias em pé e sentadas? Valha-vos deus! Sublimes, hilariantemente sublimes são os esgares, os ditos, as construções frásicas, os argumentos, as falácias dos nossos políticos.

A crise, para mim (que ainda consigo auferir um cachet exorbitante de 1000 euros mensais) tem sido só rir! Claro que eu sei muito bem que a crise não foi benfazeja para os desempregados que já deixaram de receber o subsídio. Tenho muita pena desses, pelo menos se ainda não encontraram um biscato como dealers que lhes renda um pouco mais que o ordenado mínimo… Podem não acreditar, mas há pessoas que ficaram pobres, irremediavelmente pobres, que depois de perderem o emprego perderam sucessivamente os filhos (que se bandearam para o tio rico americano) e a mulher (que se bandeou para o lado de um candidato autárquico , cheio de euros e de dólares que há 30 anos não faz mais nada além de sobrefacturar empreendimentos locais.

Mas dizia eu que a crise é um manancial de alegria e de boa-disposição. Tentar perceber as manigâncias dos espertalhotes é melhor que sudoku. É um passatempo riquíssimo, um exercício de intelectualidade que faz mais por nós que o memofante.

Para terminar, não resisto a contar-vos um dos meus dias típicos de férias. Pode ser o de ontem. Ontem fui a uma cidadezita aqui perto. Tinha água em riachos, esplanadas com sol, cafés e supermercados. Deambulei sozinho, comprei jornais, tomei cafés. Ás 5 da tarde entrei como por acaso numa casa da cultura onde passava Berlioz. Era grátis. Uma orquestra sinfónica de conservatório aprimorava a sua arte. Acho que era uma espécie de teste de avaliação dos jovens músicos. Achei-os esplêndidos. Por mim tinham todos 20. Aquilo durou umas duas horas. Dormi toda a segunda hora. Fui acordado por uma jovem esbelta que achou por bem não permitir que eu fosse fechado lá dentro.

Saí satisfeitíssimo, com Berlioz nos ouvidos e a placidez no coração.

A minha mulher estava à minha espera, mais fula que o óleo alimentar. Nervosa e arruaceira. Tinha estado no concerto dos Cold Qualquer Coisa. Coitada!

     Post  10                    (Imagem daqui)