28 de fevereiro de 2015

Já alguma vez sentiram a necessidade de se sentarem para escrever sobre coisa nenhuma?

amibaSim, quero dizer, sentar para escrever, não como a consequência de um pensamento, de um brado, de um bramido, mas como a sua causa… Posicionarmo-nos perante o acto físico de escrever, tomado como um processo acéfalo, puramente pelecípode, viscoso, materiático, como o estrebuchar de uma amiba ou o centitorcer da cauda decepada de uma sardanita, e depois esperar que daí, desse movimento informe, obscuro, brumoso, inócuo, inábil, ínvio, desse irritativo contorcionismo de ameba, desse contar de anos da sardanisca mutilada, desse clástico, morfinado matraquilhar, advenha o pensamento, a anima, a razão, o discurso, a identidade, a clareza, a elegância, a coerência, a criação, o êxtase…

Isso, gente. Partir de uma amálgama nula, emaranhada, um cerrado de junça  amorfa, um nada informe, disforme, liquescido, mucoso, de vetusta indigência amarfanhada, e mais nada. E esperar. Esperar, bêbado de esperança, que se faça a forma e o conceito e a dança, que se dê a palavra ao peito e que o texto se dê, enfim, ao puro respeito.

E que, na cálida placidez dessa dormência, vistos os actos, calços e percalços, segregada a desobra inválida e bisonha, se reconheça a estéril nulidade do processo e se reafirme, de vez, que quem cria a beleza é ela própria e nada do que é belo nasce do inútil. E que se remeta o escritor tacanho à sua condição frágil de filho incerto do incesto entre o acaso e o ocaso.

31 de janeiro de 2015

as incompetências da morte

cao ferozHonório de Freitas acabara de fazer cento e dezasseis anos. Do seu tempo já todos tinham morrido havia, pelo menos, três décadas. O que levara Honório a permanecer tanto tempo entre os vivos era um mistério até para a própria Morte. Contudo, ainda Honório tinha na boca o sabor pastoso do bolo e nas faces o acalento húmido dos filhos, netos, bisnetos e trinetos que, na sala ao lado, iam debandando, palreiros, a caminho das suas vidas, e já Ela lhe entrava porta adentro, esfalfada, pressurosa e desgrenhada. Honório reconheceu-a logo pelo ar atarantado que todas as mortes têm, apesar de não trazer consigo a gadanha, nem sequer uma foice ou mesmo uma navalhita alentejana com que pudesse justificar o fim da sua visita.

- Bem que você podia ter comprado um cão mais sociável. O bicho estava endemoninhado, com os diachos. Não tivesse eu boas pernas e teria morrido ali, apesar da minha condição de teoricamente imortal, segundo creio. Nem os apetrechos o diacho do cão me deixou trazer…

- Mas você é a morte de Woody Allen?! A do Sem Penas?! A do Para Acabar de Vez com a Cultura?! Você chama a isso boas pernas? Caramba, isso são duas verguinhas de ferro retorcidas… Por acaso conhece a Sara Sampaio, ou a Sónia Araújo?

- Para um velho de 120 anos, você seria suposto ser mais culto (desculpe o anglicismo, fiz Erasmus em Londres, o ano passado), mas é ignorante como um licenciado de Bolonha, que diacho! A morte de Allen subiu pelo algeroz, meu caro! E eu fui abalroada pelo seu cão, que diacho! Não, não conheço nem uma nem outra.

- Cento e dezasseis, se me dá licença.

-Pois que seja. Mas como diacho conseguiu você chegar a esta idade, homem?

- Fácil. Nasci em 1899. Posso contar-lhe tudo, se você souber guardar um segredo.

- Sou um túmulo.

- Você é o quê?! Como quer você levar-me consigo, sendo uma profissional tão incompetente? Nunca deveria ter dito a palavra túmulo, sua idiota. Não faz acções de formação? Não lhe ensinaram estratégias de marketing, de argumentação melíflua, de sedução irresistível? Acha que alguém gosta de fazer amizade com um túmulo?

- Fiz só uma ainda. É o meu primeiro trabalho. Mandaram-me vir ter consigo, porque consideraram ser um trabalho fácil, dada a sua provecta idade, que diacho…

- Ora, você é mesmo a morte de Woody Allen, caramba. Desça pelo algeroz. O meu cão vai acabar consigo se a vê…

21 de janeiro de 2015

dessa coisa de sermos maníaco-depressivos

livro de ataOnde disse maniaco-depressivos, digo maniacodepressivos, digo, manicómico-apressados, digo…

(Achtung! Enthält portugiesische Umgangssprache)

A acta de cerro de um processo judicial, da autoria de escrivães ou mesmo de juízes, reza quase sistematicamente assim: “Transitado em tantos de tal de dois mil e tal”. E pronto. Mesmo a leitura da maior parte dos acórdãos não ultrapassa uma página de Word, Calibri 12, a dois espaços. A sentença de Sacco e Vanzetti, escrita a punho, com letra estendida e margens generosas, quedou-se pelas três páginas e isso incluía a justificação da sentença, e da posição dos jurados, partindo do pressuposto assumido de que os factos tinham amplamente sido provados ao longo dos processos.

Ah, mas a acta de um conselho de turma ou de uma reunião de grupo ficaria improcedente se seguisse tão estreitas exigências de extensão como as que presidem aos relatos da esfera judicial. Afinal, o que é a justiça, quando comparada com as justificações pedagógicas, derramadas no texto, ziguezagueando de atropelo em atropelo, através de um emaranhado de conceitos pedagogísticos, lugares tão comuns como cadeira de barbeiro, que ninguém entende, à excepção, é claro, dos formados em acções de meio crédito, que ensinam, sem margem para dúvida, a construir, sem esforço, tanto um romance de trezentas páginas, como uma acta de quatro, tão politicamente correcta, quanto economicamente ruinosa.

De facto, o conceito de informar a comunidade escolar de que um determinado petiz não estuda um caralho, não faz a ponta de um corno e, por vezes, nem mesmo o meio do dito corno, que se está borrifando para a puta da aula, a puta da professora e a puta da seca que tudo aquilo é, que se peida amiúde, quer silenciosa quer estrepitosamente (pessoalmente prefiro esta última modalidade, por introduzir um momento particularmente vívido e dinâmico) é, claramente, muito mais complexo e avassalador do que dizer à sociedade que um tipo foi condenado a vinte anos de pildra, com visitas às sextas, cigarrito aos sábados e transístor ao domingo para ouvir o glorioso.

É que os papás, coitados, não ficariam convenientemente informados se lhes dissessem palavras que eles entendessem logo à primeira. A informação correcta e apropriada tem de ir embrulhada em PAES e PES e PANS e PUNS e artificiosamente concebida de modo a que a culpa seja sempre de alguma entidade etérea, ou que ela, a culpa, seja ela própria etérea.

Apetece-me fazer um acto de contrição, porque já vai sendo tempo e andei toda a vida a enganar as pessoas, convencendo-as, directa ou indirectamente, de que sabia ler. na verdade só sei escrever o meu nome e pouco mais. Nunca soube ao certo se um aviso das Finanças, ou de uma empresa de bens não transacionáveis, é para pagar ou para receber. Há algo naqueles discursos que obstrui a minha percepção dos factos e algo no meu optimismo que opta sempre por não pagar. Visto que sou um ignorante funcional, por que razão não o serão os encarregados de educação? E o pessoal do Pedagógico, que agora é tão pouquinho que dá dó, e por vezes não há, entre eles, ninguém que saiba, de facto, ler? E é isto…

Só não escrevo mais nada porque me deu o sono e o meu leitor também já adormeceu há muito…

16 de novembro de 2014

Odiei o meu pai duas vezes

escolaOdiei o meu pai duas vezes: uma vez aos quinze anos, porque ele estava vivo; outra aos cinquenta, porque ele estava morto.

Esse aforisma de autor praticamente desconhecido – eu – podia perfeitamente expandir-se a outras esferas e pessoas das nossas vidas, por exemplo, a escola e os professores.

Interpretações à parte, os alunos odeiam os professores, simplesmente porque eles estão ali sempre. O amor de um discípulo pelo seu mestre aumenta na razão directa da sua ausência. Todos temos experiências marcantes de alunos que se aproximam de nós, atentos, veneradores e encantados, quando já estão rodeados de filhos complicados que circunvagam pelas escolas públicas, telemóveis em riste, o amigo inseparável de todas as esquinas por onde se roçam e aquele ar perigosamente disponível. Vêm então lembrar-nos quem eles são agora e quem foram antes, eu era do 10ºF, dormia  na terceira carteira a contar da mesa do professor, na fila das janelas (sempre tive um pouco de falta de ar na escola).  Brandem luminosamente o seu actual sucesso financeiro e reclamam-se de um tempo verdadeiramente feliz esse em que se sentaram à nossa frente, abrindo arruinados cadernos, a mente e o coração tão longe da nossa aula como eu estou agora deles.

Isso mesmo: eles falam-nos com respeito, um pouco de orgulho que lhes sai do canto das bocas e alguma comiseração pelo nosso actual estado financeiro que, finalmente, parece ter-se já descaradamente derramado para a esfera pública. E nós ouvimo-los atentamente descrevendo o seu dia-a-dia, entregando-nos voluntariamente os corações e as áureas vidas familiares, sem nos lembrarmos de ter prescrito esse trabalho de casa, mas aceitando-o como se o tivéssemos feito. Se eu soubesse, professor, teria-me dedicado (o progresso gramatical não acompanhou a sua evolução social) muito mais ao Inglês, mas enfim, cá vamos andando, quando mal nunca pior…

E a gente ouve-os e depois declara lamentar não poder acompanhá-los naquele entusiástico copo e no prometedor jantar que a esposa teria todo o prazer de nos proporcionar. A gente ouve e ouve e ouve, e não faz ideia de quem eles são…

Finalmente, quando eu definitivamente desapareço da vida dos meus alunos, desencadeio neles um amor brandamente mágico. E insustentável, de tão leve…

2 de novembro de 2014

As notícias da nossa alegria

 

Lin Chuxue, vice-presidente da China Three Gorges

1. Hospital de Aveiro – os mortos já não passam pelas Urgências

Esta notícia encheu-me de felicidade. De facto, se há alguma coisa que um morto não tem é pressa. Os vivos, sim, precisam das urgências, porque para eles tudo é para ontem. Coitados, ainda não atingiram o estatuto e a dignidade dos tranquilos..

2. O algoritmo estava errado.

Outra imensa, inundada sensação de regozijo e bênção. Vejam só, um algoritmo, a definitiva, a irrevogável certeza das ciências exactas, a coisa mais próxima de Deus que eu conheço, estava errada, vergonhosamente errada. Sendo que eu próprio não estou certo nem  da idade que tenho (pelo menos diante das mulheres), nem de quantos dentes tem uma galinha,  nem de que aula vou ter agora, nem mesmo da que tive anteriormente, não posso ficar mais feliz ao saber que um irrepreensível algoritmo, uma coisa que traz o nome de uma privilegiada autoridade intelectual, era falsa, enfim, um mero artigo de fancaria que, ainda por cima, estragou a vida a um monte de gente. Ao contrário, que crime pode haver em eu não saber onde fica a sala de professores? Esse facto liberta temporariamente os meus colegas de, pelo menos, mais um pesadelo. Entre o algoritmo e eu o bom diabo escolhe a mim…

3.  Chineses satisfeitos com EDP mantêm Mexia à frente da empresa.

Ora ainda bem que há alegria e que estão todos felizes. O Mexia ainda mexe e  a EDP dá lucros aos chineses. Pelo menos dois aspectos altamente positivos: 1. a manutenção de Mexia na EDP previne, pelo menos em parte, a possibilidade de ele estar em qualquer outro lado; 2. Chineses satisfeitos representam uma mais-valia notável. O facto deve certamente acicatar-lhes o desejo de adquirirem as outras empresas nacionais, sobretudo as que já dão lucro, mesmo sem Mexias. Uma vez que vou ter que conviver cada vez mais de perto com os chineses, prefiro-os a rir. São muito mais divertidos assim. Vocês já viram um chinês mal humorado? Eu já. Um chinês descontente não nos paga nem uma cachaça branca. Mas bebe-a se lha pagarem (e com um sorriso nos lábios). Cachaça é volátil, meu povo. Chinês é volúvel, minha gente

13 de agosto de 2014

Orthographya e Syntax em meyo escholar

CRATO 2Dez mil e duzentos professores foram fazer a prova. Destes, mil e setecentos foram reprovados. Não sabemos se estão entre os reprovados os professores que deram mais de 4 erros ortográficos num texto de trezentas palavras (a estatística refere mais de cinco, mas assume que dez por cento dos erros ortográficos cometidos se devem ao acordo ortográfico. Vamos pois, descontar um erro). Foram quinze por cento os professores nestas circunstâncias, ou seja, mil quinhentos e trinta e três professores, que representam 0,01 por cento da totalidade dos docentes na carreira. Não me parece significativo.

Claro que esses 0,01 por cento podem ter calhado ao seu filho e daí os duzentos erros ortográficos que ele dá num texto de 300 palavras… Meu caríssimo Encarregado de Educação, saiba que nem tudo pode ser perfeito e se você quiser um professor realmente competente, como um Nuno Crato ou mesmo um Ricardo Salgado terá que o pagar bem caro e saiba que não estão para se cansar a dar aulas. Não é provável que o encontre no Sistema Público de Educação, pois aí só há mesmo é burros de carga, animais incompatível com uma educação para a liderança. É isso mesmo, os professores de excelência custam um balúrdio e não estão disponíveis para coisa nenhuma.

O pior cenário da PACC, mais de 4 erros ortográficos num texto de 300 palavras, manifesta-se assim absolutamente razoável, a menos que o máximo atinja números tais como 100 ou 200 erros, facto que não é referido na análise, nem me parece muito provável. Do discurso analítico em relação a este item do dislate ortográfico ressalta que, na pior das hipóteses, aqueles 15 por cento dos professores presentes à prova, deram cinco, seis, digamos, sete erros ortográficos, ficando nós sem saber se os erros foram equitativamente distribuídos por todos ou se houve alguns professores (digamos, um ou dois por cento) atrozmente açambarcadores que cometeram todos os erros, não deixando quase nada para os outros. Há professores declaradamente monopolistas no que se refere à ignorância. Pode ter sido este o caso…

Conheço bons professores de Mecânica, de Informática, de Economia, de Educação Física e de Educação Visual, esforçados, honestos, trabalhadores e empenhados (também no sentido financeiro, claro, visto que o salário há muito deixou de cobrir as despesas básicas dos seus tugúrios), que dão erros ortográficos ou de sintaxe, que é ainda pior, mas as roldanas continuam úteis, o Excel continua inflexível, o Euro continua atlético, a bola continua redonda e o sol continua amarelo.

Na verdade, não embarco facilmente nessa jangada de desmiolados que acham que todos os professores são, antes de mais, professores de Português. Será como afirmar que eu, antes de mais nada, sou professor de Matemática ou de Boas Maneiras, ou de Cidadania, ou de Educação Sexual em Meio Escolar. Não posso negar que, de um modo geral, em Portugal, a comunicação pedagógico-didáctica se faz com base na língua portuguesa, mas a comunicação raramente é perfeita sob o ponto de vista estritamente estrutural. Um professor de Matemática tem que saber o teorema de Thales; um professor de Boas Maneiras tem que ser muito bom em salamaleques e gestos amaneirados; um professor de Cidadania tem que ser bom em organização de eventos e um professor de Educação Sexual tem que saber o que é uma chuva de prata, mas um dislate gramatical, vez por outra, não traz grande mal ao mundo educacional, em nenhuma parte do mundo.

Quase 100 por cento dos nossos jornalistas, políticos, economistas, comerciantes e mangas de alpaca dizem “eu fui um dos que tive melhores notas”, em vez de dizerem “eu fui um dos que tiveram melhores notas”. Uma vez ouvi o Crato dizer uma destas na televisão e, generosamente, desculpei-o, porque ele não é professor de Português. Mas olhem que uma frase destas vale bem 200 erros num texto de 300 palavras. Oh se vale…

11 de agosto de 2014

sardinhas, líderes, primatas, pimentos, o diabo

mefistE foi então que me apareceu, sobrelevada no topo de uma pequena eminência, uma estranha espécie de Mefistófeles, uma curiosa figura de longa capa rubra a adejar sobre um corpito estreito de subalimentado, anoréctico, de postura lordótica, nariz adunco e queixo afiado, enfim, o bruxo, o Merlin, o capeta da tradição judaico-cristã.

Nos sonhos as imagens apresentam-se fluidas e mutantes e esta resvalou para a cara de um Salazar em 1933, ainda jovem, mais ou menos como aparece esboçado na capa do Dinossauro Excelentíssimo. “Mas, então – disse eu – (embora nos sonhos “dizer” possa não emitir qualquer som) – se é o Salazar, há que ouvir o que o homem tem para me dizer”. E tinha, de facto, algo para me dizer. Podia também ter sido o próprio Passos Coelho, já que qualquer um deles é mais parecido com o outro do que com o próprio retrato, mas rejeitei a hipótese porque o Passos está a banhos. O certo é que (tanto quanto um pesadelo pode ser certo) o homem da capa falou assim, como um Zaratustra dos Carapelhos:

“Acorda, levanta-te, lava os dentes, que não se pára aqui, veste umas calças castanhas e uma camisa azul e vai conduzir o teu país à felicidade e ao progresso”. “Mas eu não tenho perfil de líder, amo, nem calças castanhas eu tenho, porra!. Está certo que, quando era pequeno, aprendi que era fácil liderar uma multidão de galinhas, deixando cair bagos de milho. Isso dava-me muita alegria e um estatuto de poder que nunca mais experimentei na vida, mas…”

O homem do queixo aguçado tocou numa pedra com os dedos esguios, descarnados, azuis, e logo um painel se abriu no céu, mesmo por trás da sua cabeça de pardal (as coisas evoluem grosseiramente nos sonhos). E falou outra vez: “Estás a ver, idiota? Se não te mexes, é isto que vai acontecer” – e apontou para o painel com um  dispositivo apontador, pois claro. “O quê?! uma lanterna laser dos chineses!? Você quer que eu acredite num painel, para o qual você aponta com uma lanterna laser que projecta um patinho? Todos os meus alunos do nono ano tinham uma dessas, com que rastreavam o quadro (e, claro, as minhas costas) enquanto eu escrevinhava o que havia de mais básico na gramática inglesa.  Tenha maneiras. Tivesse você na mão uma espada flamejante, ou mesmo uma lâmpada tubular de neon, como a que eu instalei no abrigo dos meus cachorros, e ver-me-ia posto a seus pés, numa postura de humílima adoração. Agora um laser de pechisbeque…”

Os meus sonhos apresentam sempre o mesmo padrão: sonho sempre que estou com muito sono, incapaz de entrar, de facto, na acção que neles se desenvolve. Foi nessa languidez absoluta que me dispus a olhar para o painel celeste que agora era apenas um monitor CRT. “Nem sequer um monitorzito LCD, meu mefistófeles de Xabregas? Você não aprendeu ainda que a motivação de um aprendente passa, exclusivamente, por um bom manancial de produtos tecnológicos de elevada operacionalidade? Homem (ou lá o que você é), inscreva-se nas acções de formação sobre motivação na sala de aula. Você não aprenderá nada, é claro, e ficará exactamente tão estúpido como era dantes (o que não deixa de ser uma vantagem, visto que a ausência de uma desgraça já é uma felicidade), mas ganhará dois créditos, caramba! Ah, ainda pergunta? Servem para você subir de escalão quando eles forem descongelados…”

“Não temos escalões na carreira dos bruxos, embora os liberais tenham tentado estratificar a carreira em três patamares. Esse que aí vês, será o próximo líder do teu país. Não tem o carisma de um Rolão Preto, de um Sidónio Pais, ou de um Pinto Balsemão, nem mesmo de uma Maria da Fonte. Mas será o líder deste povo, se tu, miserável, não saltares fora dessa cama. A propósito, há quanto tempo não mudas os lençóis?”

“Só espero” - lembro-me de ter pensado - “que, quando eu acordar, este tipo já não esteja aqui e leve consigo essa colina de pedregulho onde se empoleira. Se assim não for, como explicarei isso à minha mulher? Uma mulher acorda de manhã e há um monte de pedras no quarto e um cheiro a enxofre que tresanda!. Como vou convencê-la de que não esteve aqui a taróloga Maya ou a Maria Helena Martins?  O tipo pensa que ela é osso fácil de roer? Aposto que não é casado. Se fosse, não estaria fora da cama a estas horas…”

“Concentra-te no que te mostro, imbecil”. “Ok, ok, diz lá”

Havia uma imensa multidão com bandeirolas, umas do Benfica, outras do PSPSDCDS, o boneco do bloco, vários emblemas do BESBOM, bandeiras brancas, azuis, amarelas, estandartes, banners, errrros hortográphicos, calçado ortopédico, bandeiras da nike, uma enorme bic esfera fina, carne de cozer do Lidl, tichartes com alarvidades escritas, bermudas a cair rabo abaixo. O costume. À frente desta turba, um homem gorducho erguia a mão direita em punho balofo e saudava o ar com a esquerda. “Junte-se aos bons, companheiro” – falou ele dirigindo-se a mim. Quando me aproximei mais da turbamulta, vi que eram macacos,  grotescos símios rindo alarvemente com esgares pre-civilizacionais, mordiscando-se lambendo-se, coçando-se, catando-se, em alegre e harmoniosa convivência.

Gostei disso, era a minha cara. Senti-me imediatamente um deles e juntei-me à turba, saudando arqueado, dócil, oferecido, o líder risonho e bonacheirão. Prossegui a marcha, estreitado entre duas chimpanzés atrevidas, e só então reparei que o carismático e risonho líder trazia às costas um avantajado cacho de bananas. “Não se diz cacho, diz-se figo de bananas” corrigiu uma das chimpanzés, que era da Madeira…

“Nunca mais como pimentos à noite” – disse eu – e elas riram. “O que são pimentos? -perguntou um orangotango de chinelo de dedo…

3 de agosto de 2014