1 de outubro de 2016

O poder está na rua

Resultado de imagem para 25 de abril- O poder está na rua, caramba! – troava esbaforido, em 75, um reaça peçonhento lá dos lados da Trafaria. – Aquilo ali é Cuba! ou pior, é o Kremlin.

- Pois que fique na rua! – volvia eu. –Se há lugar para o poder que seja a rua.

Apesar dos meus perfeitos 24 anos, a rua era, para mim, a minha rua. Era o Ti Caneco, que adormecia a ver os palhaços, e se debulhava em etílicas lágrimas a ouvir Que povo é este, que Povo?: era o Zé da Léria que dizia apreciar, muito mais do que o humanamente sustentável, aquela sombra triangular que as mulheres carregavam por baixo dos umbigos;  era a Ti Maria Moça, contadora de causos, mulher forte, viril, musculada e energética, mais macho que o Zé da Léria; era o senhor Henrique, o único que ostentava o prefixo de Sr, porque falava aos domingos, nos tablados dos protestantes e era uma espécie de secretário-geral da palavra de deus; e eram os cachopos da minha idade, dotados da dupla função de aterrorizar o sacristão, quebrando os vidros da sacristia e de se borrarem de medo da guarda nacional republicana, quando ela, inesperadamente, surgia por trás da baliza.

A rua que deveria ser empossada de todos os poderes era esta – a minha.

11 de setembro de 2016

este blogue que vos deixo

O primeiro jacto

jato… e, de repente, surge no anil do verão aquele risco branco. Os homens pararam a lavoura. Mulheres benzeram-se e caíram por terra. Crianças romperam numa gritaria de fim do mundo. O coroinha foi tocar o sino a rebate. 

Era o fim do mundo, de facto. Aquele traço azul, a dividir hemisférios, não era menos que o dedo paráclito a riscar a giz qual deveria ser o lado dos justos e qual o dos pecadores. Dali foram logo a casa do velho prior que, como todos os velhos priores, estava de palito na boca e cheiro a cebola e vinho.  Olhou também para o céu e lá estava ainda, agora esvaindo-se num fumo esbranquiçado, o traçado dessa nuvem longilínea tão inesperadamente presente, tão irritantemente inoportuna, cuja aparição não constava dos anais da módica sabedoria do padre nem dos registos do Pentateuco. O padre achou, de facto, melhor, fazer uma missa rápida, e entrou na capela, seguido por todos, sob as estridentes badaladas do sacristão.

- Cala-te aí um pouco, ó Zé, e desce daí para a palavra de Deus.

E foi ali, naquele arrastar de latim e de lamúrias, que todos prometeram ser pessoas melhores, deixar intacta a leira do vizinho, nunca mais cortar a água a ninguém e fazer uma peregrinação a Fátima, a pé, se aquilo não fosse o fim dos tempos e se o Criador lhes desse mais alguns anos de vida.

- Há-de dar, há-de dar – disse o farmacêutico que, entretanto, se aproximara a ver que coisa estranha se passava ali, aquela atabalhoada missa tão a desoras  – há-de dar, senhor prior, há-de dar, porque aquilo ali no céu é, apenas e só, um avião a jacto.

A palavra do farmacêutico, que soara culta e científica, era também agora providencialmente santa, já que proferida e ratificada por Deus, dentro da Sua própria casa. Essas palavras aquietaram de imediato,  todos os espíritos, cujos corpos, descontraídos e bem humorados agora, foram regressando às suas costumeiras actividades agrícolas.

- E o resto da missinha? Valha-me Deus, cos diabos! – reverberou pelos velhos caixotões do tecto a voz roufenha do abade…

28 de março de 2016

Reforma precisa-se

reformaNão é dessa reforma que eu falo, dessa de jogar dominó e usar boné e pulôver aos losangos. Preciso mesmo de uma reforma completa, sobretudo ao nível da pintura. Minha pintura está estalada, como o meu verniz, e é difícil manter uma conversa com alguém sobre educação ou sobre política de ensino sem borrar a pintura e a escrita. Preciso de começar pelo telhado, para poder fazer tudo o que me der na telha.  Tenho que me desvencilhar do fenómeno literário para poder dizer coisas sem  a semiologia à perna, à espreita dos meus erros, da minha má fortuna e do meu amor à agua-ardente.

Preciso também de um elevador novo, que vá desde aqui  até lá acima, à caixa dos pirolitos, ao painel solar, para elevar as minhas baixas sensações estéreis a pensamentos elevados e luminosos.

Estou entupido ao nível da canalização e de tudo que é bomba de líquidos.  Sei que possuo todos os líquidos da boa comunicação, líquidos e fluentes fluidos, tenho até algumas consoantes líquidas, consoante os casos. Mas eles plasmaram-se, pasmaram-se, e não transvazam de maré em maré. Já tentei o cif e o sopro, mas pouco escorreu do meu sifão.

Creio que o problema reside na instalação eléctrica, toda ela praticamente pre-diluviana. Os interruptores estão ferrugentos e preciso urgentemente de acender um sem número de lâmpadas, lanternas, focos e gambiarras por dentro do meu breu. 

(Creio que o vinho de pacote me anda a fazer mal…)

28 de fevereiro de 2016

Velho...

No passado dia oito de Setembro, aí pelas três da tarde, fui oficialmente declarado velho. Desde esse dia até hoje tenho vindo a tentar perceber a epistemologia deste novo estatuto e verifiquei, um pouco surpreso, que esse estatuto não me contemplou com qualquer benefício notório ou regalia de casta.
Reparei que as notícias dizem normalmente coisas como esta:  “morreram, (ou foram  sequestrados, ou ficaram enterrados na neve ou foram levados por uma enchente, enfim, a tragédia é absolutamente indiferente) três homens, seis mulheres e quatro velhos”, ou, no actualíssimo dizer politicamente correcto, "seis mulheres, três homens e quatro velhos". Isto quer dizer que o estatuto de velho não acumula com o de homem, antes o exclui liminarmente. O mesmo acontece, portanto, ao estatuto do homem, que não acumula com o de velho e exclui este conceito, embora não por tanto tempo quanto seria desejável, para tristeza dos homens e vingança dos velhos...

Sabendo que não sou mais um homem, mas apenas um velho, intrigou-me saber que competências de homem estão definitivamente negadas ou proibidas ao velho, para que este não possa mais ser considerado homem. 
Ah, o velho não é mais homem porque não pode trabalhar. Nada contra. Com um pouco de boa vontade, considero isso um privilégio. Mas há velhos que trabalham, são os chamados velhos pobres.  E isso reclama, naturalmente, que eu procure outras competências desaparecidas do homem que se é até aos sessenta e cinco anos, e que deixa de se ser a partir dessa idade.
E foi aí que tropecei no sexo. É claro. Homem pode fazer isso com alguma facilidade. O velho, não.  Mesmo um velho novo como eu (na verdade só tenho alguns meses de velho, sendo portanto um velho bebé, um caloiro da velhice) experimenta enormes dificuldades quer em fazê-lo, quer em não o fazer. E prova dificuldades acrescidos quer em assumir que o faz, quer em assumir que o não faz. A verdadeira diferença, nesta matéria, entre o velho e o adolescente é que o velho tem consciência do que lhe está a acontecer e o adolescente ainda não.
Dada a minha perceptível inexperiência como velho, fui ontem mesmo consultar um velho mais velho do que eu, um velho de 80 anos, o Senhor Armandino, que se refastelava no Arcada, diante de um café abagaçado. “Está claro que tu és um puto”- atirou ele. “Estás baralhado e confuso. É natural. Eu te digo: ser velho traz muitas limitações. Nunca sabemos o que podemos comer e, sobretudo, quem podemos comer”.   
Aí está o verdadeiro estatuto do velho: ainda temos apetite, mas não temos acesso a pratos suculentos.  “Só para homens” – diz o cardápio…

16 de dezembro de 2015

ESTE BLOGUE QUE VOS DEIXO (1)

seixo(Atenção! Contém calão que pode ferir susceptibilidades.)  


Apresento-lhes hoje D. Maria Chaputa, peixeira e filósofa da segunda metade do século passado. À pergunta,
impertinentemente académica, sobre a identidade e os fins últimos do Homem neste mundo, respondia com a razoabilidade de uma pessoa profundamente conhecedora do meio marinho, de onde emergiram homem e mulher numa tarde de primavera, na infância pardacenta dos tempos.
-Atão o menino não sabe o que é um hoime? O hoime é o bicharoco que nos f***. E há os bôs e os maus.
- Como assim, D. Maria?! Quem são os bons e quem são os maus?
- Ah mê filho, os bôs são os que nos f**** a c*** e os maus são os que nos f**** os cornos.
Eis aí, na descomplicada profundidade de D. Maria Chaputa, a definição (ainda que antropologicamente limitativa) do Homem e do seu destino no universo do Seixo de Mira e aldeias vizinhas, todas bem servidas do seu fétido e arenoso peixe. De facto, os homens são apenas bicharocos, que crescem na bicharoquice a cada dia que passa e que, aligeirando o vernáculo salmoira de D. Maria, viveram e vivem perfurando vaginas e submetendo a um jugo infame de subalternia e descrédito as suas legítimas proprietárias.
D. Maria sabe tanto disso como de carapaus e de robalos e todos os seus hoimes cheiravam a vagalhões indómitos e carapaus secos. O sermão que se fez a homens e peixes foi biblicamente o mesmo. Os peixes, no entanto, aprenderam-no melhor. E ficaram no mar, onde a violência de género é manifestamente mais mitigada…

5 de abril de 2015

Troco exame de Cambridge por furúnculo no traseiro ou o Senhor ressuscitou hoje e bloqueou sistema de email escolar

page-not-found-404É muito provável que já esteja no mail o link para o exame da acção de formação Cambridge for Schools. Hoje é dia de Páscoa, o mais sensato dia para tentar completar a formação para avaliação dos exames de Cambridge destinados à canalha do nono ano. Esse complemento de formação inclui um pequeno set de textos escritos e de componentes orais para serem avaliados de 1 a 5 (ou de 5 a 1, para quem quiser boicotar todo o processo).

Quando me aproximei do computador, fiquei de pé, esperando que decorressem os 8 minutos que aquela geringonça demora a abrir. Quando finalmente abriu, fui ao correio da escola. Mas, (um mas tão reticente quanto prometedor), o mail não estava a abrir. Tendo experimentado outras páginas, verifiquei que o bloqueio estava reservado apenas ao mail escolar, o que me fez crer que Deus o bloqueara, não só porque detesta que trabalhem no seu dia, mas porque não deve concordar com o facto de professores portugueses terem sido voluntariamente obrigados a, em tempo record, fazerem aquela componente de formação, atrasando todo o trabalho escolar, trabalho esse que não foi substituído por ela mas ficará acumulado para ser realizado no terceiro período lectivo.

Disse-lhes que fiquei de pé enquanto a máquina abria, não porque aprecie especialmente essa posição, mas sim porque o mesmo Deus que providencialmente bloqueou o mail da escola, também me brindou ontem com um majestoso furúnculo, mesmo ali ao pé do selim.

Ora é sabido que o Senhor nada faz sem um objectivo, embora muitos achem que a pedagogia por objectivos está fora de moda. E foi então a seguinte a minha interpretação dos desígnios de Deus: 1 Deus definitivamente não quer que eu faça o exame de Cambridge; 2 Deus está-me a propor que me dedique à stand-up comedy e abandone de vez a sit-down comedy que tem sido a minha vida (até ao aparecimento do furúnculo, está claro).

Se, no entanto, Deus me mandou o furúnculo só para reforçar o seu desejo de me libertar da acção de formação, bastava bloquear o mail, pelo menos até á reforma.

1 de março de 2015

Gérson

gersonGérson, do 9º ano, tirou outra positiva. Desta vez a Ciências.

- “Yesssss! Mais cinco euros”

- “Mas porquê isso, Gérson?”

- “A minha avó dá-me cinco euros por cada positiva que eu tirar.”

- “Mas então porque tiras tão poucas? “

- “É que os professores também não ajudam muito… O Setor ganha bem?”

- “Nem por isso, Gerson. A minha avó já morreu e…”

- “Quer ganhar uns trocados? O negócio é o seguinte. Por cada positiva que os profes me derem, ganham 40 por cento dos cinco euros que a minha avó desempochar. Eu fico com os outros 60 por cento.”

- “Negócio fechado” - disse o professor – e foi, no intervalo, contar aos colegas a conversa que tivera com o Gérson. Estes riram do desplante do aluno e esqueceram o incidente.

Acontece, porém, que o Gérson arrancou, na segunda ronda de testes, mais positivas do que na primeira. Na verdade, quase triplicou o seu sucesso académico, tendo feito outro tanto com o seu sucesso económico, evidentemente. Como prometido, e acossado pelo seu impoluto sentido de justiça e hombridade (e também por causa da nota em atitudes e valores), o Gérson tem vindo a apresentar-se, no início das aulas, a todos os professores que lhe deram nota positiva. Traz a cada um deles uma redondíssima moeda de dois euros, que faz rodopiar alegremente sobre a secretária.

- “Tome, é sua! E muito obrigado”

Para seu espanto, nenhum professor aceitou o pagamento contratado, facto que o Gérson atribuiu à taralhoquice dos profes, já demasiado velhos na maioria dos casos, taralhoquice essa certamente provocada pelo barulho dos corredores, pelos cortes salariais, por terem perdido o sentido do valor do dinheiro ou pela tal burocracia de que tanto se queixavam sempre e de que o Gérson não fazia ideia que coisa fosse...

O sentido de justiça e hombridade do Gérson foi momentaneamente escoriado mas logo se recompôs. Os golpes morais, nestas idades, apagam-se com alguma facilidade e Gérson, sem grandes constrangimentos, arrecadou também a comissão destinada aos docentes…

Em casa do Gérson, uma avó preocupada:

- “Oh, Gerson, vê lá não andes a estudar demais, filho. Isso pode fazer-te mal. Vá, deixa o computador e vai espairecer um pouco com os teus amigos…”

28 de fevereiro de 2015

Já alguma vez sentiram a necessidade de se sentarem para escrever sobre coisa nenhuma?

amibaSim, quero dizer, sentar para escrever, não como a consequência de um pensamento, de um brado, de um bramido, mas como a sua causa… Posicionarmo-nos perante o acto físico de escrever, tomado como um processo acéfalo, puramente pelecípode, viscoso, materiático, como o estrebuchar de uma amiba ou o centitorcer da cauda decepada de uma sardanita, e depois esperar que daí, desse movimento informe, obscuro, brumoso, inócuo, inábil, ínvio, desse irritativo contorcionismo de ameba, desse contar de anos da sardanisca mutilada, desse clástico, morfinado matraquilhar, advenha o pensamento, a anima, a razão, o discurso, a identidade, a clareza, a elegância, a coerência, a criação, o êxtase…

Isso, gente. Partir de uma amálgama nula, emaranhada, um cerrado de junça  amorfa, um nada informe, disforme, liquescido, mucoso, de vetusta indigência amarfanhada, e mais nada. E esperar. Esperar, bêbado de esperança, que se faça a forma e o conceito e a dança, que se dê a palavra ao peito e que o texto se dê, enfim, ao puro respeito.

E que, na cálida placidez dessa dormência, vistos os actos, calços e percalços, segregada a desobra inválida e bisonha, se reconheça a estéril nulidade do processo e se reafirme, de vez, que quem cria a beleza é ela própria e nada do que é belo nasce do inútil. E que se remeta o escritor tacanho à sua condição frágil de filho incerto do incesto entre o acaso e o ocaso.