14 de agosto de 2017

a família quer-se na praia...

 

welcome-to-the-beach_23-2147513515- hoje vamos à praia – disse o senhor afonso, marido de dona Lurdes e pai assim assim de duas enormes raparigas de 17 e 19 anos, bem alimentadas a iogurte e pizzas, setenta e dois e setenta e oito quilos respectivamente, excluindo os telemóveis e os adidas.

dona Lurdes, esposa e mãe daqueles três, a única a cujo nome honrado me apetece dar letra maiúscula, disse, com um sorriso de poucos dentes mas, ainda assim, luminoso, que era uma óptima ideia, que ia arrumar a cozinha, lavar os tachos, guardar os restos, levar o lixo, fazer o farnel, e já se juntava a eles.

o senhor afonso derramou-se no sofá, apoderou-se do comando e ficou a tagarelar com as filhas, ambas estiradas no sofá grande, pose um pouco virilizada pela gordura e pela civilização.

dona Lurdes ouvia-os rir alvarmente e supôs-se a mais feliz das mulheres.  raspou tachos, abriu e fechou a torneira uma trintena de vezes, esfregou o chão e, de repente, deixou de os ouvir. a sala estava em silêncio, supô-los adormecidos e temeu levemente pela sua tarde na praia.  mas ainda lhe faltava passar o pano na bancada, deixar tudo perfeito.   quando, finalmente, terminou, dirigiu-se à sala a informar que estava pronta.   a sala estava vazia.   tinham ido sem ela.

à noite, pediram-lhe desculpa, mas acrescentaram que o tempo não tinha estado nada bom lá, muito vento, bandeira vermelha, impossível sequer molhar os pés e, além disso, ela também não gostava lá muito de praia.   dona Lurdes concordou. de facto não era grande fã...  mas enfim, sempre seria uma reunião de família.  paciência,  ficaria para outra vez, e lembrou-se de que ainda lhe faltava esvaziar e limpar o frigorífico por dentro...

as duas filhinhas nunca tiraram os olhos dos respectivos telemóveis – a atitude mais feminina que ousaram ter.

20 de maio de 2017

Para os que curtem Filosofia do Quotidiano Repelente

regandoAcordei com sede e supus que as minhas árvores também a tinham. O meu quintal é longo e estreito. Há dias que não são regadas as árvores lá do fundo. Vesti-me à pressa. engoli um pacote com um líquido qualquer e preparei-me para  fazer uma caminhada de 130 metros até ao fundo do quintal, sem saber se conseguiria regressar depois do hercúleo esforço.

Reparando que o portão estava escancarado, resolvi fechar a porta que dá para o jardim e meti a chave no bolso. Comecei a percorrer os 130 metros debaixo de um sol castigador.

Enquanto apontava o jacto para um caramanchão de camélias, reparei que havia uma fuga lateral. Desapertei a ponteira para tentar resolver o problema. Então aquilo rebentou num jorro de loucos e despejou, sem misericórdia, uma centena de litros que me ensopou de água gélida da cintura para baixo. Acto contínuo, tirei as calças ensopadas e estendi-as sobre o relvado, reparando então que não trazia cuecas ou qualquer outra peça interior, seja lá o que a moda ou a cafonice chame a essas peças: boxers, trousses, slips, ceroulas, calções (o único aumentativo que diminui o tamanho das coisas, dado que as calças são sempre maiores do que os calções, devendo estes chamar-se preferencialmente calcinhas, ainda que com risco da própria virilidade).

Enfim, estava nu ali em baixo! Isso era a terrível realidade. Estava em leitão, ali no fundo de um quintal estreito, rodeado de vizinhos (e vizinhas) a regar as suas hortas, e sem saber que impressão aquela geni(t)al e inesperada   aparição provocaria neles (e nelas), e encetei nova caminhada, desta vez em direcção à casa, buscando o conforto de umas calças, puxando a camisa para baixo tanto quanto a sua costura permitia e desejando que a natureza não me tivesse dotado tão bem… “Bom dia, vizinho!” “Bom dia vizinho,” etc. …

Chegado a casa, reparei que não tinha chave. Tinha ficado no bolso das calças ensopadas. No jardim não havia trapo que me subtraísse à bondosa e caritativa saudação dos vizinhos (e vizinhas). Encetei, portanto, novo trajecto até às calças que jaziam amarfanhadas sobre a relva, a intransponíveis 130 metros de mim. “Bom dia, vizinho” Bom dia vizinho”, “Bom dia vizinho”, etc. Perguntei-me em que episódio de Mr Bean isto se teria passado e não encontrei. Era mesmo comigo, era mesmo original e dava um post. Aqui está ele. Nunca recebi tantos “bom dia vizinho” por minuto.

De regresso a casa, caminhando agachado como um ladrão, ouvi mais mais alguns bomdiavizinhos, mas estava triunfante, com a chave na mão…

No entanto, os meus três cães, que me esperavam junto à porta,  olharam-me espantados e pareceu-me ver um risinho malévolo em cada um deles…

15 de maio de 2017

Serviço Público

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Não digo que não seja razoável e até mesmo útil as pessoas preocuparem-se com assuntos deste jaez: Que Europa vamos ter? Ressuscitamos a velha? Fabricamos uma nova? Dará para renegociar a nossa dívida? Saímos do Euro? Fechamos as lusas portas e elegemos outro ditador?

Tudo bem, pode ser importante discutir esses assuntos. mas mais importante, muito mais, é saber se o protector solar que nos sobrou do ano passado pode ainda servir este ano. Isto sim, é assunto de inegável utilidade pública. Uma resposta cabal a esta matéria guindar-se-ia aos píncaros da mais absoluta popularidade.

Ora bem, nesta conjuntura, e como tenho um espírito inegavelmente científico, embora sem nunca me afastar do pragmatismo que nos sustenta de pé, fui pesquisar o que se sabia sobre assunto tão premente. E encontrei. Alguém fez um teste a estes protectores velhos que, por serem velhos, se escrevem com "c". (É desolador! Há sempre alguém que já pensou e avançou nas soluções de problemas que só agora me afetam. Jamais tive o direito a uma primícia, fosse de que tipo fosse....)

Portanto, já sabe: se, no próximo verão quiser usar o resto do protector solar deste verão, não se esqueça de comprar um bom protetor solar para o protetor solar.
Serviço público é isto. Estou aqui estou a deitar búzios...

13 de maio de 2017

Sobe a minha admiração por Donald Trump

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Sobe um ponto, mas sobe. Subiu de zero para um, seja lá que escala estou a usar. Donald Trump veio dizer recentemente que o exercício físico faz mal à saúde. Totalmente de acordo. Nada que eu já não tivesse comprovado há anos, perante a chacota colectiva. Há anos que eu venho avisando que as vísceras não foram feitas pare serem abanadas. Nunca foi provado que a ausência de exercício físico nos engorde e muito menos que nos mate. O Fernando Mendes está vivo, já tinham reparado? E se ele sofresse de alguma doença não poderia ficar anos a fazer aquele programa televisivo sem sequer uma caganeira…

Mas Trump vai mais longe: “o desporto é uma perda de tempo”. É por isso que Donald está riquíssimo. Enquanto uns estavam a suar num ginásio, ele suava a vender charutos como muambeiro na Big Apple. O seu tio, o Patinhas, nunca andava mais que alguns metros a pé e poucos quilómetros de automóvel, apesar de a razão não ser do domínio da saúde mas da economia, visto que solas e pneus são caros.

Eu nunca entrei num ginásio a não ser para espreitar as miúdas a suar. E sempre considerei que mal empregado era aquele suor, caramba…

Acontece que as pessoas comem demais. Gastam balúrdios em comida, desequilibram a nossa frágil balança de pagamentos, engordam demais e voltam a gastar balúrdios para desengordar. Em vez do ginásio, sugiro uma enxada e uma horta: batatas, feijão da atrepa, tomates, cebolas pepinos e pimentos. Mistura-se tudo com água e vai a lume brando…

Donald ainda estabelece um inaudito símile entre o corpo humano e uma bateria de telelé. Trazem ambos um número limitado de carregamentos. Quanto mais puxares por eles mais depressa se finam.

A verdadeira sabedoria não está nos médicos. Está nas pessoas que conseguem enriquecer sem fazer barulho e virar presidentes sem chacoalhar a tripa. Ainda que a competência psíquica seja diminuta, como parece ser o caso…

12 de abril de 2017

Porky’s?

Resultado de imagem para porco              Nem sequer preciso de concordar inteiramente com o que se vem dizendo a propósito da “Epopeia dos Estudantes Portugueses em Espanha”, no dizer do meu estimadíssimo amigo Tony Cravo Roxo. Num plano    meramente surrealista, mil porcos num hotel seria absolutamente  plausível. Entrariam em vara, claro, certamente comeriam algumas  poltronas derrubariam algumas bugigangas, leriam o Animal Farm, desprestigiariam um pouco os mármores e os tapetes. Depois, retirar-se-iam sem pagar, arrotando (enfim, não fizeram o 12º ano). Não escreveriam nada nas paredes, não se queixariam às mamãs porcas.

              No plano real do momento civilizacional em que estamos (e que deveríamos estar vivendo em plenitude) 1000 alunos do secundário, com o 12º ano concluído, têm que possuir um perfil de formação que lhes permita viver entre outros homens, bem como as competências interpessoais suficientes para se divertirem sem emporcalhar as comunidades de onde emanam - a escola e a nação.

(Soou salazarento? Paciência.)

18 de março de 2017

Agradeçamos aos governantes

 

cartoon-donkey-white-background-45548039A morte é inevitável, mas é uma coisa um bocado chata. Já a burrice, sendo também inevitável, é, de facto, muito mais divertida. A única maneira eficaz de enfrentar a morte é ser ou estar burro. Há, pois, que emburrecer, e o mais rápido possível, pois não sabemos o dia nem a hora. Ficar burro não é assim tão difícil. Para emburrecer, basta estar vivo. Pelo contrário, ser inteligente torna as coisas bem mais difíceis porque deus, que dá o frio igual à roupa, dá os problemas iguais à inteligência.
Os ainestaines resolvem equações do quinto grau a dezasseis incógnitas. Os burros contam fardos de palha, ou comem-nos mesmo sem os contar, e são felizes.
Os governos, constituídos por gente de quociente de inteligência uns furos acima dos burros, sabem muito bem disto. E ajudam-nos, a nós, os burros, a sair da vida sem custar tanto...
Como é que um tipo rico e inteligente enfrenta a morte? Com um grandessíssimo cagaço: esperneia, barafusta, chora, arrepela-se todo, finca pé. E como reage à morte um pobre burro com uma reforma de meio saco de alfarroba? Ele diz-lhe comiserado: "Ok, morte, se achas que é por aí, eu vou por aí. Isto aqui também já deu o que tinha a dar. E segue-a, alapardado."
Agradeçamos aos governantes, aos ricos, aos argutos, aos facínoras, aos corruptos, aos chicos-espertos, e a toda a sábia fauna que nos rodeia, a capacidade de nos manter burros e pobres, pois se um camelo passa no cu da agulha, mais depressa passa um burro...