28 de março de 2016

Reforma precisa-se

reformaNão é dessa reforma que eu falo, dessa de jogar dominó e usar boné e pulôver aos losangos. Preciso mesmo de uma reforma completa, sobretudo ao nível da pintura. Minha pintura está estalada, como o meu verniz, e é difícil manter uma conversa com alguém sobre educação ou sobre política de ensino sem borrar a pintura e a escrita. Preciso de começar pelo telhado, para poder fazer tudo o que me der na telha.  Tenho que me desvencilhar do fenómeno literário para poder dizer coisas sem  a semiologia à perna, à espreita dos meus erros, da minha má fortuna e do meu amor à agua-ardente.

Preciso também de um elevador novo, que vá desde aqui  até lá acima, à caixa dos pirolitos, ao painel solar, para elevar as minhas baixas sensações estéreis a pensamentos elevados e luminosos.

Estou entupido ao nível da canalização e de tudo que é bomba de líquidos.  Sei que possuo todos os líquidos da boa comunicação, líquidos e fluentes fluidos, tenho até algumas consoantes líquidas, consoante os casos. Mas eles plasmaram-se, pasmaram-se, e não transvazam de maré em maré. Já tentei o cif e o sopro, mas pouco escorreu do meu sifão.

Creio que o problema reside na instalação eléctrica, toda ela praticamente pre-diluviana. Os interruptores estão ferrugentos e preciso urgentemente de acender um sem número de lâmpadas, lanternas, focos e gambiarras por dentro do meu breu. 

(Creio que o vinho de pacote me anda a fazer mal…)

28 de fevereiro de 2016

Velho...

No passado dia oito de Setembro, aí pelas três da tarde, fui oficialmente declarado velho. Desde esse dia até hoje tenho vindo a tentar perceber a epistemologia deste novo estatuto e verifiquei, um pouco surpreso, que esse estatuto não me contemplou com qualquer benefício notório ou regalia de casta.
Reparei que as notícias dizem normalmente coisas como esta:  “morreram, (ou foram  sequestrados, ou ficaram enterrados na neve ou foram levados por uma enchente, enfim, a tragédia é absolutamente indiferente) três homens, seis mulheres e quatro velhos”, ou, no actualíssimo dizer politicamente correcto, "seis mulheres, três homens e quatro velhos". Isto quer dizer que o estatuto de velho não acumula com o de homem, antes o exclui liminarmente. O mesmo acontece, portanto, ao estatuto do homem, que não acumula com o de velho e exclui este conceito, embora não por tanto tempo quanto seria desejável, para tristeza dos homens e vingança dos velhos...

Sabendo que não sou mais um homem, mas apenas um velho, intrigou-me saber que competências de homem estão definitivamente negadas ou proibidas ao velho, para que este não possa mais ser considerado homem. 
Ah, o velho não é mais homem porque não pode trabalhar. Nada contra. Com um pouco de boa vontade, considero isso um privilégio. Mas há velhos que trabalham, são os chamados velhos pobres.  E isso reclama, naturalmente, que eu procure outras competências desaparecidas do homem que se é até aos sessenta e cinco anos, e que deixa de se ser a partir dessa idade.
E foi aí que tropecei no sexo. É claro. Homem pode fazer isso com alguma facilidade. O velho, não.  Mesmo um velho novo como eu (na verdade só tenho alguns meses de velho, sendo portanto um velho bebé, um caloiro da velhice) experimenta enormes dificuldades quer em fazê-lo, quer em não o fazer. E prova dificuldades acrescidos quer em assumir que o faz, quer em assumir que o não faz. A verdadeira diferença, nesta matéria, entre o velho e o adolescente é que o velho tem consciência do que lhe está a acontecer e o adolescente ainda não.
Dada a minha perceptível inexperiência como velho, fui ontem mesmo consultar um velho mais velho do que eu, um velho de 80 anos, o Senhor Armandino, que se refastelava no Arcada, diante de um café abagaçado. “Está claro que tu és um puto”- atirou ele. “Estás baralhado e confuso. É natural. Eu te digo: ser velho traz muitas limitações. Nunca sabemos o que podemos comer e, sobretudo, quem podemos comer”.   
Aí está o verdadeiro estatuto do velho: ainda temos apetite, mas não temos acesso a pratos suculentos.  “Só para homens” – diz o cardápio…

16 de dezembro de 2015

ESTE BLOGUE QUE VOS DEIXO (1)

seixo(Atenção! Contém calão que pode ferir susceptibilidades.)  


Apresento-lhes hoje D. Maria Chaputa, peixeira e filósofa da segunda metade do século passado. À pergunta,
impertinentemente académica, sobre a identidade e os fins últimos do Homem neste mundo, respondia com a razoabilidade de uma pessoa profundamente conhecedora do meio marinho, de onde emergiram homem e mulher numa tarde de primavera, na infância pardacenta dos tempos.
-Atão o menino não sabe o que é um hoime? O hoime é o bicharoco que nos f***. E há os bôs e os maus.
- Como assim, D. Maria?! Quem são os bons e quem são os maus?
- Ah mê filho, os bôs são os que nos f**** a c*** e os maus são os que nos f**** os cornos.
Eis aí, na descomplicada profundidade de D. Maria Chaputa, a definição (ainda que antropologicamente limitativa) do Homem e do seu destino no universo do Seixo de Mira e aldeias vizinhas, todas bem servidas do seu fétido e arenoso peixe. De facto, os homens são apenas bicharocos, que crescem na bicharoquice a cada dia que passa e que, aligeirando o vernáculo salmoira de D. Maria, viveram e vivem perfurando vaginas e submetendo a um jugo infame de subalternia e descrédito as suas legítimas proprietárias.
D. Maria sabe tanto disso como de carapaus e de robalos e todos os seus hoimes cheiravam a vagalhões indómitos e carapaus secos. O sermão que se fez a homens e peixes foi biblicamente o mesmo. Os peixes, no entanto, aprenderam-no melhor. E ficaram no mar, onde a violência de género é manifestamente mais mitigada…

5 de abril de 2015

Troco exame de Cambridge por furúnculo no traseiro ou o Senhor ressuscitou hoje e bloqueou sistema de email escolar

page-not-found-404É muito provável que já esteja no mail o link para o exame da acção de formação Cambridge for Schools. Hoje é dia de Páscoa, o mais sensato dia para tentar completar a formação para avaliação dos exames de Cambridge destinados à canalha do nono ano. Esse complemento de formação inclui um pequeno set de textos escritos e de componentes orais para serem avaliados de 1 a 5 (ou de 5 a 1, para quem quiser boicotar todo o processo).

Quando me aproximei do computador, fiquei de pé, esperando que decorressem os 8 minutos que aquela geringonça demora a abrir. Quando finalmente abriu, fui ao correio da escola. Mas, (um mas tão reticente quanto prometedor), o mail não estava a abrir. Tendo experimentado outras páginas, verifiquei que o bloqueio estava reservado apenas ao mail escolar, o que me fez crer que Deus o bloqueara, não só porque detesta que trabalhem no seu dia, mas porque não deve concordar com o facto de professores portugueses terem sido voluntariamente obrigados a, em tempo record, fazerem aquela componente de formação, atrasando todo o trabalho escolar, trabalho esse que não foi substituído por ela mas ficará acumulado para ser realizado no terceiro período lectivo.

Disse-lhes que fiquei de pé enquanto a máquina abria, não porque aprecie especialmente essa posição, mas sim porque o mesmo Deus que providencialmente bloqueou o mail da escola, também me brindou ontem com um majestoso furúnculo, mesmo ali ao pé do selim.

Ora é sabido que o Senhor nada faz sem um objectivo, embora muitos achem que a pedagogia por objectivos está fora de moda. E foi então a seguinte a minha interpretação dos desígnios de Deus: 1 Deus definitivamente não quer que eu faça o exame de Cambridge; 2 Deus está-me a propor que me dedique à stand-up comedy e abandone de vez a sit-down comedy que tem sido a minha vida (até ao aparecimento do furúnculo, está claro).

Se, no entanto, Deus me mandou o furúnculo só para reforçar o seu desejo de me libertar da acção de formação, bastava bloquear o mail, pelo menos até á reforma.

1 de março de 2015

Gérson

gersonGérson, do 9º ano, tirou outra positiva. Desta vez a Ciências.

- “Yesssss! Mais cinco euros”

- “Mas porquê isso, Gérson?”

- “A minha avó dá-me cinco euros por cada positiva que eu tirar.”

- “Mas então porque tiras tão poucas? “

- “É que os professores também não ajudam muito… O Setor ganha bem?”

- “Nem por isso, Gerson. A minha avó já morreu e…”

- “Quer ganhar uns trocados? O negócio é o seguinte. Por cada positiva que os profes me derem, ganham 40 por cento dos cinco euros que a minha avó desempochar. Eu fico com os outros 60 por cento.”

- “Negócio fechado” - disse o professor – e foi, no intervalo, contar aos colegas a conversa que tivera com o Gérson. Estes riram do desplante do aluno e esqueceram o incidente.

Acontece, porém, que o Gérson arrancou, na segunda ronda de testes, mais positivas do que na primeira. Na verdade, quase triplicou o seu sucesso académico, tendo feito outro tanto com o seu sucesso económico, evidentemente. Como prometido, e acossado pelo seu impoluto sentido de justiça e hombridade (e também por causa da nota em atitudes e valores), o Gérson tem vindo a apresentar-se, no início das aulas, a todos os professores que lhe deram nota positiva. Traz a cada um deles uma redondíssima moeda de dois euros, que faz rodopiar alegremente sobre a secretária.

- “Tome, é sua! E muito obrigado”

Para seu espanto, nenhum professor aceitou o pagamento contratado, facto que o Gérson atribuiu à taralhoquice dos profes, já demasiado velhos na maioria dos casos, taralhoquice essa certamente provocada pelo barulho dos corredores, pelos cortes salariais, por terem perdido o sentido do valor do dinheiro ou pela tal burocracia de que tanto se queixavam sempre e de que o Gérson não fazia ideia que coisa fosse...

O sentido de justiça e hombridade do Gérson foi momentaneamente escoriado mas logo se recompôs. Os golpes morais, nestas idades, apagam-se com alguma facilidade e Gérson, sem grandes constrangimentos, arrecadou também a comissão destinada aos docentes…

Em casa do Gérson, uma avó preocupada:

- “Oh, Gerson, vê lá não andes a estudar demais, filho. Isso pode fazer-te mal. Vá, deixa o computador e vai espairecer um pouco com os teus amigos…”

28 de fevereiro de 2015

Já alguma vez sentiram a necessidade de se sentarem para escrever sobre coisa nenhuma?

amibaSim, quero dizer, sentar para escrever, não como a consequência de um pensamento, de um brado, de um bramido, mas como a sua causa… Posicionarmo-nos perante o acto físico de escrever, tomado como um processo acéfalo, puramente pelecípode, viscoso, materiático, como o estrebuchar de uma amiba ou o centitorcer da cauda decepada de uma sardanita, e depois esperar que daí, desse movimento informe, obscuro, brumoso, inócuo, inábil, ínvio, desse irritativo contorcionismo de ameba, desse contar de anos da sardanisca mutilada, desse clástico, morfinado matraquilhar, advenha o pensamento, a anima, a razão, o discurso, a identidade, a clareza, a elegância, a coerência, a criação, o êxtase…

Isso, gente. Partir de uma amálgama nula, emaranhada, um cerrado de junça  amorfa, um nada informe, disforme, liquescido, mucoso, de vetusta indigência amarfanhada, e mais nada. E esperar. Esperar, bêbado de esperança, que se faça a forma e o conceito e a dança, que se dê a palavra ao peito e que o texto se dê, enfim, ao puro respeito.

E que, na cálida placidez dessa dormência, vistos os actos, calços e percalços, segregada a desobra inválida e bisonha, se reconheça a estéril nulidade do processo e se reafirme, de vez, que quem cria a beleza é ela própria e nada do que é belo nasce do inútil. E que se remeta o escritor tacanho à sua condição frágil de filho incerto do incesto entre o acaso e o ocaso.

31 de janeiro de 2015

as incompetências da morte

cao ferozHonório de Freitas acabara de fazer cento e dezasseis anos. Do seu tempo já todos tinham morrido havia, pelo menos, três décadas. O que levara Honório a permanecer tanto tempo entre os vivos era um mistério até para a própria Morte. Contudo, ainda Honório tinha na boca o sabor pastoso do bolo e nas faces o acalento húmido dos filhos, netos, bisnetos e trinetos que, na sala ao lado, iam debandando, palreiros, a caminho das suas vidas, e já Ela lhe entrava porta adentro, esfalfada, pressurosa e desgrenhada. Honório reconheceu-a logo pelo ar atarantado que todas as mortes têm, apesar de não trazer consigo a gadanha, nem sequer uma foice ou mesmo uma navalhita alentejana com que pudesse justificar o fim da sua visita.

- Bem que você podia ter comprado um cão mais sociável. O bicho estava endemoninhado, com os diachos. Não tivesse eu boas pernas e teria morrido ali, apesar da minha condição de teoricamente imortal, segundo creio. Nem os apetrechos o diacho do cão me deixou trazer…

- Mas você é a morte de Woody Allen?! A do Sem Penas?! A do Para Acabar de Vez com a Cultura?! Você chama a isso boas pernas? Caramba, isso são duas verguinhas de ferro retorcidas… Por acaso conhece a Sara Sampaio, ou a Sónia Araújo?

- Para um velho de 120 anos, você seria suposto ser mais culto (desculpe o anglicismo, fiz Erasmus em Londres, o ano passado), mas é ignorante como um licenciado de Bolonha, que diacho! A morte de Allen subiu pelo algeroz, meu caro! E eu fui abalroada pelo seu cão, que diacho! Não, não conheço nem uma nem outra.

- Cento e dezasseis, se me dá licença.

-Pois que seja. Mas como diacho conseguiu você chegar a esta idade, homem?

- Fácil. Nasci em 1899. Posso contar-lhe tudo, se você souber guardar um segredo.

- Sou um túmulo.

- Você é o quê?! Como quer você levar-me consigo, sendo uma profissional tão incompetente? Nunca deveria ter dito a palavra túmulo, sua idiota. Não faz acções de formação? Não lhe ensinaram estratégias de marketing, de argumentação melíflua, de sedução irresistível? Acha que alguém gosta de fazer amizade com um túmulo?

- Fiz só uma ainda. É o meu primeiro trabalho. Mandaram-me vir ter consigo, porque consideraram ser um trabalho fácil, dada a sua provecta idade, que diacho…

- Ora, você é mesmo a morte de Woody Allen, caramba. Desça pelo algeroz. O meu cão vai acabar consigo se a vê…

21 de janeiro de 2015

dessa coisa de sermos maníaco-depressivos

livro de ataOnde disse maniaco-depressivos, digo maniacodepressivos, digo, manicómico-apressados, digo…

(Achtung! Enthält portugiesische Umgangssprache)

A acta de cerro de um processo judicial, da autoria de escrivães ou mesmo de juízes, reza quase sistematicamente assim: “Transitado em tantos de tal de dois mil e tal”. E pronto. Mesmo a leitura da maior parte dos acórdãos não ultrapassa uma página de Word, Calibri 12, a dois espaços. A sentença de Sacco e Vanzetti, escrita a punho, com letra estendida e margens generosas, quedou-se pelas três páginas e isso incluía a justificação da sentença, e da posição dos jurados, partindo do pressuposto assumido de que os factos tinham amplamente sido provados ao longo dos processos.

Ah, mas a acta de um conselho de turma ou de uma reunião de grupo ficaria improcedente se seguisse tão estreitas exigências de extensão como as que presidem aos relatos da esfera judicial. Afinal, o que é a justiça, quando comparada com as justificações pedagógicas, derramadas no texto, ziguezagueando de atropelo em atropelo, através de um emaranhado de conceitos pedagogísticos, lugares tão comuns como cadeira de barbeiro, que ninguém entende, à excepção, é claro, dos formados em acções de meio crédito, que ensinam, sem margem para dúvida, a construir, sem esforço, tanto um romance de trezentas páginas, como uma acta de quatro, tão politicamente correcta, quanto economicamente ruinosa.

De facto, o conceito de informar a comunidade escolar de que um determinado petiz não estuda um caralho, não faz a ponta de um corno e, por vezes, nem mesmo o meio do dito corno, que se está borrifando para a puta da aula, a puta da professora e a puta da seca que tudo aquilo é, que se peida amiúde, quer silenciosa quer estrepitosamente (pessoalmente prefiro esta última modalidade, por introduzir um momento particularmente vívido e dinâmico) é, claramente, muito mais complexo e avassalador do que dizer à sociedade que um tipo foi condenado a vinte anos de pildra, com visitas às sextas, cigarrito aos sábados e transístor ao domingo para ouvir o glorioso.

É que os papás, coitados, não ficariam convenientemente informados se lhes dissessem palavras que eles entendessem logo à primeira. A informação correcta e apropriada tem de ir embrulhada em PAES e PES e PANS e PUNS e artificiosamente concebida de modo a que a culpa seja sempre de alguma entidade etérea, ou que ela, a culpa, seja ela própria etérea.

Apetece-me fazer um acto de contrição, porque já vai sendo tempo e andei toda a vida a enganar as pessoas, convencendo-as, directa ou indirectamente, de que sabia ler. na verdade só sei escrever o meu nome e pouco mais. Nunca soube ao certo se um aviso das Finanças, ou de uma empresa de bens não transacionáveis, é para pagar ou para receber. Há algo naqueles discursos que obstrui a minha percepção dos factos e algo no meu optimismo que opta sempre por não pagar. Visto que sou um ignorante funcional, por que razão não o serão os encarregados de educação? E o pessoal do Pedagógico, que agora é tão pouquinho que dá dó, e por vezes não há, entre eles, ninguém que saiba, de facto, ler? E é isto…

Só não escrevo mais nada porque me deu o sono e o meu leitor também já adormeceu há muito…