9 de julho de 2018

o fim da internet e a educação para essa coisa da produção de conteúdos

Tenho lido e ouvido por aí, em vários e conceituados areópagos, mesmo aqueles que se reclamam da democracia plena, que talvez esteja próximo o fim da internet, pelo menos no paradigma em que hoje a conhecemos. Razão principal: a barafunda em que a rede se tem vindo a transformar, pelo menos a partir da última década. Os sábios sabem (por isso são sábios) definir “barafunda” melhor que eu. Portanto, vou-lhes dar a palavra: “ A Internet é o sonho de qualquer pensamento livre. E também o seu pesadelo. O relativismo reinante, declarando de igual modo todas as opiniões como sendo verdades intocáveis, por mais falhas de credibilidade que sejam e por mais que se faça displicentemente uma amálgama das verdades relativamente verdadeiras e dos seus sofismas não pode deixar de confundir os pobres leitores da rede mundial.  Este estado de coisas, acrescido da total ausência de regras e de respeito pela propriedade intelectual, pela compostura e pelo state-of-the-art do momento civilizacional que vivemos, contribuirão por certo para a desinformação, intoxicação e alienação dos povos que a ela sistematicamente recorrem .” – joao de miranda maranhão – inconformista, gandarês e sábio

Humm… Enfim, todos sabemos que a ausência de censura é uma chatice, sobretudo quando permite proliferar ideologias e comportamentos que não são os nossos. Não consigo entender por que tanta gente acha que eu estou errado, quando eu próprio (e não um qualquer) acredito estar certo.

Gosto da internet como ela é: sublime e medíocre, cortês  e destemperada, morna e agressiva, sem censura prévia nem póstuma. Gosto que ela seja uma vagabunda ao serviço de todos, mesmo daqueles que escrevem “abri-mos” e “Françês”.  Custa muito, lá isso custa, mas a nossa generosidade é imensa, laicamos tudo e só mais tarde, ao deitar, arrancamos os cabelos que ainda temos.

Outra das razões pelas quais já se vai pensando em pôr fim a isto é o descaramento com que publicamos como nossas coisas que um outro qualquer cretino inventou. Nunca referimos o autor por uma das duas razões, ou por ambas, nos casos mais renitentes: 1- Não sabemos quem foi que disse ou escreveu aquilo que achámos fabuloso, apesar de nem ter ficado perto. 2- Até sabemos quem foi (foi um tipo genial que aparece nas revistas, lutou contra qualquer coisa ou a favor de qualquer coisa), mas pode ser que os outros não saibam e aí os louros caem sobre as nossas cãs. (Hummm…)

Se a internet não consegue barrar a escrita aos medíocres, aos parvinhos e a todos os que possuem gostos duvidosos sobre música, literatura e paisagismo, compete, obviamente, a nós ensinar essas pobres criaturas a dominar os saberes e os conceitos de que nós há muito desfrutamos. Porém, devemos continuar a colocar likes em todo o lado (sobretudo nas fotografias de comida, nos vídeos de animais que gostam muito dos donos ou de outros animais, nos postais de pores do sol e naquelas tiradas do simbolismo literário que, não sei por que carga de água, voltou agora com tudo, em plena era pós-moderna. Não há paciência mas não nos esqueçamos de que justamente a paciência é a maior virtude de um ensinante).  A isso chamam os psicopedagogos reforço positivo, a mais eficaz, pacificada e incontroversa estratégia de aprendizagem. (Hummmm…)

10 de junho de 2018

HOJE CHOVEU O DIA TODO

incendioÉ A ÚNICA MANEIRA DE NÃO OUVIR A SIRENE DOS BOMBEIROS.

Se o sol ousa brilhar por mais de uma hora, é sabido que vais ouvir o carro dos bombeiros a desactivar mais uma ignição.. Foi o que aconteceu ontem.
É facto que ainda não houve incêndios este ano. As condições de humidade não o têm permitido, graças aos Céus (e também aos "céus"). Porém, segundo informações fidedignas, tem havido uma média de meia centena de ignições por dia - ignições sem incêndios, o que denota a eficácia dos serviços de protecção. Pelo contrário, os grandes incêndios sem ignição conhecida atestam a ignorância, a burrice ou a cobardia de quem acredita nessa espécie de patranhas..
Há, certamente, incêndios que possam ser desencadeados sem a intervenção da mão humana. Esses são, naturalmente, de origem divina...

Alguém ouviu alguma entidade ligada ao poder afirmar peremptoriamente que se trata de fogo criminoso e de que vai mover mundos e fundos para enquadrar judicialmente os seus autores? Claro que não. Porque os grandes incêndios do ano passado, sem ignição, foram ateados por Deus. Ou por uma faíscota qualquer atirada lá de cima por Ele.

Não se preocupem com os incendiários de todos os matizes. Eles hão-de cozer um dia em banho-maria. Entretanto, gastem o que têm e o que não têm a limpar florestas e a pagar multas...

14 de maio de 2018

Mais uma imodesta contribuição para a pedodemagogia institucional

relogio-de-parede-mdf-mdfHá mais ou menos três anos comprei um relógio de parede numa loja de chineses, desses que custavam trezentos paus e agora custam 10 euros. Não sei bem se foi ter estranhado a mudança, se a diferença climática o perturbou, o certo é que o relógio apenas trabalhou uma semana. Na assunção de que dar horas é um dos trabalhos mais monótonos que se possam ter, e lançando mão dos meus conhecimentos de pedodemagogia, já que há longos anos me interesso por esta matéria, resolvi traçar uma estratégia motivadora, partindo da hipótese mais que possível de se tratar de um simples caso de preguiça.

Nesta conjuntura (“conjuntura” ainda não caiu em desuso? É que nunca mais a ouvi por aí…), abri-o com carinho, soprei-lhe ar morno, sequei-o com um pano macio, falei-lhe ao ouvido, prometi-lhe um telefone esperto, lembrei-lhe docemente a importância social da sua nobre missão, inseri nele um sopro de vontade e as mais caras pilhas do mercado. NADA. O tipo manteve-se calado e quieto por três anos, tempo suficiente para qualquer relógio chinês tirar uma licenciatura em cachaças com mestrado incluído e diploma de pendurar.

Ontem olhei, prostrado, para o meu falhanço pedagógico, assim personalizado objectificado naquele relógio e veio-me à ideia mudar de estratégia, afivelando uma atitude mais assertiva e musculada, a fim de rendibilizar os meus 10 euros e produzir um breakthrough sem precedentes na área da pedodemagogia oficial: dei-lhe dois tabefes e três piparotes (tudo científico, é claro). O gajo começou a trabalhar e nem precisei de lhe mudar a pilha. Trabalha há 24 horas e sem cansaço visível. Com isto, acabei de inventar uma outra ciência que espero venha a ser utilizada amiúde no futuro e não só em relógios chineses… A palavra é: PEDAGOGIA. Conheciam? Claro que não.

Mais uma imodesta contribuição para a pedodemagogia institucional

Há mais ou menos três anos comprei um relógio de parede numa loja de chineses, desses que custavam trezentos paus e agora custam 10 euros. Não sei bem se foi ter estranhado a mudança, se a diferença climática o perturbou, o certo é que o relógio apenas trabalhou uma semana. Na assunção de que dar horas é um dos trabalhos mais monótonos que se possam ter, e lançando mão dos meus conhecimentos de pedodemagogia, já que há longos anos me interesso por esta matéria, resolvi traçar uma estratégia motivadora, partindo da hipótese mais que possível de se tratar de um simples caso de preguiça.

Nesta conjuntura (“conjuntura” ainda não caiu em desuso? É que nunca mais a ouvi por aí…), abri-o com carinho, soprei-lhe ar morno, sequei-o com um pano macio, falei-lhe ao ouvido, prometi-lhe um telefone esperto, lembrei-lhe docemente a importância social da sua nobre missão, inseri nele um sopro de vontade e as mais caras pilhas do mercado. NADA. O tipo manteve-se calado e quieto por três anos, tempo suficiente para qualquer relógio chinês tirar uma licenciatura em cachaças com mestrado incluído e diploma de pendurar.

Ontem olhei, prostrado, para o meu falhanço pedagógico, assim personalizado objectificado naquele relógio e veio-me à ideia mudar de estratégia, afivelando uma atitude mais assertiva e musculada, a fim de rendibilizar os meus 10 euros e produzir um breakthrough sem precedentes na área da pedodemagogia oficial: dei-lhe dois tabefes e três piparotes (tudo científico, é claro). O gajo começou a trabalhar e nem precisei de lhe mudar a pilha. Trabalha há 24 horas e sem cansaço visível. Com isto, acabei de inventar uma outra ciência que espero venha a ser utilizada amiúde no futuro e não só em relógios chineses… A palavra é: PEDAGOGIA. Conheciam? Claro que não.

14 de abril de 2018

O Cadete Schweick na Revolução Encravada

Tinham decorrido já dois meses sobre a Revolução dos Cravos, quando Schweick foi convocado por um clarim para uma instrução noturna na Tapada. Nunca como então o Cadete Schweick se apercebera tão ruidosamente de como é lenta a mudança das instituições. Dois meses deveriam ser mais que suficientes para que a tropa já tivesse absorvido o programa das Forças Armadas, a Democracia plena, o fim da guerra, da instrução e das paradas. Tudo fazia supor que, depois daquela data amorosa, os campos de cravos ditariam todos os momentos da vida militar. As namoradas poderiam ir dormir nas casernas, haveria colchas de seda e baralhos de cartas sobre mesinhas de cabeceira em mogno. Os pratos de lata seriam substituídos por outros de porcelana finíssima, bordejados de flores, com cinco quinas no centro. O lato do vinho canforado seria agora uma taça de cristal, de pé mais alto que o tacão das beldades, por onde escorreria o deleitoso espumante nacional da Raposeira.

Às duas da madrugada estava tudo formado na parada, cantil, bornal e a velha mochila ensebada que já tinha duas comissões no ultramar e retornava sempre ao Puto, para acompanhar o próximo Asp Of Mil até às picadas de Moçambique ou da Guiné. Ombro armas ao Comandante da Companhia e o pelotão de Schweick, comandado pelo Tenente Valadino, deslizou ensonado até se perder no matagal.

Às três, Schweick já rastejava num rio de merda, algodão no nariz, a farda lodacenta, a cara maquilhada de tinta preta, granadas rebentando sobre as pontes, ouvidos a zunir, bala real sobre as cabeças, trinchando os arbustos da outra margem.

Colado ao lodo, cansado do interminável rastejar, Schweick alçou o rabo um pouco, até quase à linha do fogo e ouviu o grito rouco de um sargento miliciano “ Baixe o rabo, camarada, ou quer ser derretido com uma rajada? Parece parvo o Amélia!” Acto contínuo, um silvo quase imperceptível picou-o no cu como uma melga gigante. Outro silvo, outra picada no traseiro. Levou a mão enlameada à nádega e apalpou um líquido quente e espesso. Sangue. Cheirou a mão. Era sangue.

Logo agora que se abria um novo mundo cheio de promessas e de algumas verdades, que tinham acabado em definitivo os pesadelos que vinha sofrendo desde 61. Logo agora, no início do renascimento, o Cadete de Abril, que passara a madrugada de 24 para 25 ao relento, formado num pelotão de faz-de-conta por mais de quatro horas, ali numa travessa ao Largo do Carmo, com uma G3 descarregada entre os braços pendentes, ele, um cadete de Abril, ali a fazer número, elemento de rectaguarda de uma revolução que estava a acontecer ali perto, de cuja etiologia permanecia ignorante mas que supunha coisa grande e boa, ele, anónimo para o comando operacional mas famoso para si próprio, estava ali a esvair-se em sangue, na mais estúpida e inopinada morte que um herói poderia desejar. Grande galo.

Continuava vivo, no entanto. Arrastou-se até uma zona mais seca e voltou a apalpar o traseiro. Hum, praticamente seco. Que diabo o teria ferido? Carregou fundo, como à procura de um calibre 9 ou algo assim. Não. Eram duas picadas superficiais, praticamente indolores, armamento desconhecido da tropa, agulhas de tricotar, alfinetes de cabeça, zarabatanas, fisgas disparando arames, dispositivo extraterrestre, quem sabe!

De manhã, Schweick queixou-se a um camarada. O elemento olhou o traseiro de Schweick, introduziu dois dedos nos estranhíssimos buracos e, com Schweick mais acabrunhado do que quando, 30 anos depois, foi submetido a um toque rectal, recomendou a descida à enfermaria,

“Está aqui um corpo estranho, cadete. Está perto, vou remover. Caramba, é um chumbo de uma espingarda de pressão de ar! Alguém lhe deu um tiro de Flover na instrução,”

“Dois, dois tiros!” – disse o cadete – “Com um intervalo de alguns segundos.”

Como é que um herói de Abril, enfim, um semi-heroi de Abril, aprende a lidar com este novo item? Decerto, um tiro de HK21 seria honroso, embora um pouco mais doloroso. Um tiro de pressão de ar era demais.

“Vou-lhe pôr aqui um pouco de álcool e um penso. Recomendo-lhe ministrar mais algum álcool por via oral, umas cachaças, por exemplo. Amanhã estará bom”. “Obrigado, doutor”.

De facto, dia seguinte, Schweick já nem sentia sequer um leve ardor. Levantou-se e sentou-se e formou na parada e carregou a G3 e bebeu a cânfora do costume, na costumeira lata, e dormiu na sua enxerga e esqueceu os tiros, e teve o seu próprio pelotão que apresentou regularmente ao Comandante de Companhia, e esqueceu a cama de dossel com criado-mudo em mogno e esqueceu a visita da namorada ao quartel e esqueceu, sobretudo, a revolução dos cravos, para ele eternamente uma revolução encravada…

Mas quem diabo teria ousado expedir uma chumbada de matar pardais a um cadete de Abril? Quem?

Ah, Schweick! Ah, portugueses!

Autodeterminação de género ou autodeterminação de sexo?

generoo situações ligeiramente diferentes. Para mim, a primeira é simples e incontestada. Se um indivíduo me diz que é um homem, eu falo-lhe do próximo jogo do Sporting. Se me diz que é mulher, eu ponho-me a contabilizar as hipóteses que tenho com ela. (Normalmente são diminutas, mas a culpa nunca foi minha...)
Quanto ao género, cada ser vivo é que sabe de que género é e quando ou quanto seria confortável mudar.
Já em relação aos seres não vivos, vai continuar a haver a terrível discriminação de género. Estes seres não têm uma lei que lhes acuda e não experienciarão nunca a graça de poder alterar os seus géneros a partir dos 15 anos de idade. Uma cadeira será sempre feminina ainda que já vá nos trinta e tal anos de idade, como por exemplo esta onde me sento.
No plano pessoal e meramente egocentrista, prefiro, de longe, estar sentado sobre um ser inerte que declaradamente pertença ao género feminino. Em relação aos seres vivos e humanos só assumo a velha e consuetudinária relação com o género feminino, embora, nestes casos e ao contrário da minha opção pela cadeira, a opção pela mulher não passe nunca por me sentar sobre ela. Será falta de imaginação? Inexperiência? Inépcia?
A autodeterminação de sexo é muito complicada e difícil de entender pelo meu cérebro masculino, limitadíssimo como todos os cérebros masculinos. Não vejo como um homem possa decepar os seus apetrechos, cavar uma fenda, muni-la de um aprazível túnel e fazê-lo desaguar** num útero. E como pode, de um modo autodeterminado, uma mulher tapar aquele adorável fosso, atarraxar uma inestética sacola, presa a uma inestética tubagem de vinte centímetros, cujos donos sofrem horrores na tentativa de a esconder ou, pelo menos, dissimular?!
Acredito que um dia os ínfimos cérebros masculinos possam descobrir a facilidade extrema desta mutação. Mas amanhã não será a véspera desse dia...

(Disclaimer: Não tenho nada a ver com o que acabaram de ler. Foi culpa do meu amigo Alter-ego, o vinho.)

** Só num cérebro masculino é que túneis desaguam...

9 de outubro de 2017

GRAMÁTICA E AMIGOS – Uma treta de serviço (púbico) público

gramaticaTenho muitos amigos. Alguns são muito gerundivos como o Fernando, o Laurindo, o Orlando e o Sarabando. Outros têm nome de Particípio Passado: o Solnado, a Ada, o Caiado, o Calado (que é o melhor), o Furtado, a Benvinda e o Margarido. Tenho amigos prefixados, sobretudo com o Prefixo de Repetição, o Renato (que nasceu duas vezes), a Regina (que tem duas vaginas) e o Rem...édios (que tem dois, mas não muito grandes). O Adérito, aderiu a alguma coisa e nunca mais conseguiu descolar. Tenho dois amigos Pretéritos Perfeitos: o Amadeu e o Caim (primeira pessoa do Pretérito Perfeito de “cair”, lá na minha terra). O meu amigo Jeremias é um Pretérito Imperfeito, segunda pessoa do singular, mas muito Indicativo. Tenho amigos aumentativos como o Antão, o Brandão, o Gusmão e o Sebastião. Amigos na Primeira Pessoa (o Eurico, o Euclides, o Eusébio e o Eugénio). Tenho ainda amigos Superlativos (o Veríssimo e o Máximo) e o Guterres, que é um Presente do Conjuntivo da Segunda Pessoa do Singular do verbo Guterrar (do alemão errar bem). Chamo-me João Miranda Maranhao, sou aumentativo no princípio (cabeçudo) e sou aumentativo no fim (tenho os pés grandes). Mas, no meio (um Gerúndio e, ainda por cima, no Feminino), nada faria supor, pois não? Bem, publicidade enganosa... ou excesso de low profile

14 de agosto de 2017

a família quer-se na praia...

 

welcome-to-the-beach_23-2147513515- hoje vamos à praia – disse o senhor afonso, marido de dona Lurdes e pai assim assim de duas enormes raparigas de 17 e 19 anos, bem alimentadas a iogurte e pizzas, setenta e dois e setenta e oito quilos respectivamente, excluindo os telemóveis e os adidas.

dona Lurdes, esposa e mãe daqueles três, a única a cujo nome honrado me apetece dar letra maiúscula, disse, com um sorriso de poucos dentes mas, ainda assim, luminoso, que era uma óptima ideia, que ia arrumar a cozinha, lavar os tachos, guardar os restos, levar o lixo, fazer o farnel, e já se juntava a eles.

o senhor afonso derramou-se no sofá, apoderou-se do comando e ficou a tagarelar com as filhas, ambas estiradas no sofá grande, pose um pouco virilizada pela gordura e pela civilização.

dona Lurdes ouvia-os rir alvarmente e supôs-se a mais feliz das mulheres.  raspou tachos, abriu e fechou a torneira uma trintena de vezes, esfregou o chão e, de repente, deixou de os ouvir. a sala estava em silêncio, supô-los adormecidos e temeu levemente pela sua tarde na praia.  mas ainda lhe faltava passar o pano na bancada, deixar tudo perfeito.   quando, finalmente, terminou, dirigiu-se à sala a informar que estava pronta.   a sala estava vazia.   tinham ido sem ela.

à noite, pediram-lhe desculpa, mas acrescentaram que o tempo não tinha estado nada bom lá, muito vento, bandeira vermelha, impossível sequer molhar os pés e, além disso, ela também não gostava lá muito de praia.   dona Lurdes concordou. de facto não era grande fã...  mas enfim, sempre seria uma reunião de família.  paciência,  ficaria para outra vez, e lembrou-se de que ainda lhe faltava esvaziar e limpar o frigorífico por dentro...

as duas filhinhas nunca tiraram os olhos dos respectivos telemóveis – a atitude mais feminina que ousaram ter.