Obviamente que os professores do quadro também vão ser submetidos a exame para entrar na carreira, como os novatos. Não é que isso faça muito sentido, mas que sentido precisamos nós de descobrir, naquilo que o não tem, para justificar as medidas governamentais? Aliás, as coisas sem sentido estão na base da criação do universo e na sua manutenção técnica. Os deuses têm sentido? A vida? o casamento? a cerveja sem álcool? os preservativos com canela? (ops, isto tem sentido, sim, e creio que deve ser sentido único). Mas, para além dele, do preservativo acanelado, nada mais tem sentido debaixo do sol, e ninguém me dissuade de pensar que mesmo o próprio sol não seria tão desejado se nunca tivesse existido.
É, portanto, fácil partir para um decreto regulamentar que aposta na extirpação de vinte euros aos professores. Há um sem número de vozes a aplaudir uma medida que, mesmo sendo estúpida, ajuda a calar algumas bocas desaforadas. Lembrei-me agora que 20 euros roubados a cada professor, básico ou superior, ignorante ou catedrático, ou seja, mais ou menos ignorante, (com exame ou sem exame, já que isso é completamente indiferente) renderão dois milhões de euros, a contar por baixo. É, nós ainda somos 100000, se contarmos com os idiotas que estão fora do sistema de ensino mas mantêm o desejo insano de regressar.
Não será muito o que se arrecada com vinte euros pelo exame de acesso à carreira, é certo, mas podemos com eles calar a boca a uns poucos de generais, mortinhos por voltar a afiar as facas e derrubar o que resta deste governo trôpego. Se tirarmos uns tostões à horda de professores que se arrasta por aí poderemos redireccionar a fúria dos militares a contento de muitos dos lacaios do neoliberalismo financista.
Está certo que um exame de acesso a uma carreira onde as pessoas já se encontram configura, naturalmente, uma atitude esquizofrénica. Mas eu não me lembro de ter vislumbrado uma única atitude política que não tivesse sido esquizofrénica, nos últimos dez anos das nossas vidas...
Post 12 (imagem domínio público)
Nenhum partido político sairá ileso da convocatória presidencial. O PSD foi, obviamente, o primeiro chamuscado, ainda pelas mãos do próprio Presidente que lhe adiou a morte anunciada, mas não lha retirou. O CDS automutilou-se, decepou um dos seus membros, só porque sim. Agora, vive à procura de um membro novo que possa ser atarrachado sem sequer ir ao hospital. O PS nunca foi coisa nenhuma e quando por momentos foi alguma coisa nunca essa coisa foi suficientemente credível fosse para o que fosse. O Não-Sei-das-Quantas Seguro anda à procura da charneira do Soares, mas não sabe em que raio de cofre a velha raposa a guardou, e, se lhe perguntar, ele já nem se lembra de que coisa isso era. (A velha raposa ainda alinha palavras de modo gramaticalmente correcto, mas essas palavras já há muito estão obsoletas. Algumas delas já significam exactamente o contrário daquilo que Soares está convencido que elas ainda significam).
De todos os estudos que viemos fazendo ou fabricando ao longo dos anos, nenhum se apresenta mais ostensivamente claro do que aqueles que estabelecem uma relação unívoca entre o desaparecimento progressivo do estrado e a progressiva perda da autoridade pedagógica do professor. O estrado foi desaparecendo na razão directa do aumento da indisciplina na sala de aula.
Miguel de Unamuno esteve lá em casa ontem. Aprestei-me a servir-lhe o melhor chá que a Tetley comercializa, um que sabe a baunilha com laivos de terra batida, bouquet a frutos secos e sugestões de argila, tudo num final de boca redondo e persistente. Oh, perdão, isto é um vinho que abri hoje ao almoço e a confusão foi precipitada pelas primeiras palavras que ouvi ao Miguel, mal se alapou no menos roto dos meus três sofás Ibéria. 